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janeiro 03, 2010

Ano novo, velhos números

por Rafael Bán Jacobsen

Sendo um físico teórico, um dos meus instrumentos de trabalho mais preciosos é a matemática. Por isso, com o tempo, apaixonei-me pelos números e, cada vez mais, enxergo neles uma beleza ímpar. Há ocasiões em que quase chego a duvidar de que sou um físico legítimo, pois a matemática envolvida nos problemas de pesquisa às vezes me fascina muito mais do que as questões físicas em si. Ao acompanharem meus trabalhos, alguns colegas, em tom de galhofa, dizem: “Olha, só posso parabenizá-lo por ter entrado para o time dos matemáticos puros.” Outros, mais austeros, aconselham: “Acho que você deveria perder menos tempo com a matemática e mais tempo com a física.” Mas eu sou teimoso e ainda acho que uma equação fala mais do que três bilhões e meio de palavras. A beleza dos números me seduz.

Todavia, sou um caso quase isolado: a maioria das pessoas detesta lidar com números, torce o nariz para fórmulas, sofre engulhos só de ver um gráfico. Mas sigo convicto da verdadeira maravilha que os números representam. Não é fantástico perceber, embora não se saiba a razão, que qualquer número par pode ser escrito como a soma de dois números primos? Não é simplesmente de cair o queixo que uma mesma proporção esteja presente em fenômenos tão distintos quanto a multiplicação de indivíduos nas sucessivas gerações de um casal de coelhos e também em diversas medidas do corpo humano (a altura total e a medida do umbigo até o chão; a altura do crânio e a medida da mandíbula até o alto da cabeça; a medida da cintura até a cabeça e o tamanho do tórax; etc.)? Ou, mais fundamentalmente, não é desconcertante o fato de que um mesmo conjunto de símbolos, uma mesma construção lógica, que é a matemática, sirva bem a propósitos tão prosaicos quanto contar conchinhas na beira da praia mas também nos permita calcular há quantos bilhões de anos nosso universo existe?

Sim, os números estão repletos de beleza, mas também podem ser extremamente cruéis. Há contextos em que a beleza dos números se esvazia por completo; então, a matemática já não é capaz de provocar qualquer sensação de enlevo. Ao contrário, nesses casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona tudo que há de pior em nós, seres humanos: a desesperança, a revolta, o ódio. Os números que descrevem o holocausto animal constituem um desses casos.

Em 2003, com base nas estatísticas da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations) sobre agricultura, o Secretariado da União Vegetariana Europeia, apresentou o número de animais mortos no mundo para consumo humano durante aquele ano. Os números foram estabelecidos a partir de relatórios provenientes de mais de 210 países, mas devemos levar em conta que alguns países e territórios não fornecem dados. Os números foram os seguintes:

- Galinhas e frangos: 45 bilhões e 900 milhões

- Patos: 2 bilhões e 260 milhões

- Porcos: 1 bilhão e 240 milhões

- Coelhos: 857 milhões

- Perus: 691 milhões

- Gansos: 533 milhões

- Carneiros, ovelhas, cordeiros: 515 milhões

- Cabras: 345 milhões

- Bois, vacas, vitelos: 292 milhões

- Roedores: 65 milhões

- Pombos e outras aves: 63 milhões

- Búfalos: 23 milhões

- Cavalos: 4 milhões

- Asnos, mulas, machos: 3 milhões

- Camelos e outros camelídeos: 2 milhões

A matéria do Centro Vegetariano* sobre o tema alerta ainda que a soma de todos esses números fornece um total de mais de 50 bilhões de animais, sem ter em conta os animais aquáticos (peixes e crustáceos). Os números referem-se apenas aos animais abatidos nos matadouros. Excluem-se os animais de criação extensiva (geralmente para consumo doméstico), assim como os que são alvo da caça, difíceis de contabilizar por não haver qualquer tipo de controle. Certamente não estão incluídos nos números os desafortunados animais assassinados em rituais religiosos e tampouco os cães e gatos exterminados em sua globalizada Auschwitz particular, os famosos centros de controle de zoonoses. De tudo isso, só podemos depreender que a realidade é muito pior.

Diante desses números, toda beleza se esvai, escorre feito o sangue dos inocentes animais mortos em nome de nossos vícios e de nossa ganância, restando, então, a carcaça exangue do puro horror. São dados antigos, mas basta olhar ao redor para perceber que as coisas não podem ter melhorado (e, nesse caso, mesmo que os números caíssem pela metade, a chacina ainda teria dimensões dantescas).

Em um trabalho publicado em 2001, Luiz Antonio Pinazza, redator de pecuária e política agrícola da Revista Agroanalysis**, da Fundação Getúlio Vargas, joga um balde de água fria no otimismo vegetariano:

A formulação das tendências de consumo é investigada pelo The International Food Policy Research Institute (IFPRI), seguindo um modelo alimentar mundial em que se incluem dados originários de 37 países e grupos de países e 18 produtos. Conhecido como Impact (International Model for Policy Analysis of Agricultural Consumption), o cenário do início dos anos 90 até 2020 prevê um aumento do consumo da carne e do leite de respectivamente 1,8 e 3,3% nos países em vias de desenvolvimento e de 0,6 e 0,2% nos países desenvolvidos. Ou seja, até 2020, em toneladas métricas, os países em vias de desenvolvimento consumirão mais 100 milhões de toneladas de carne e mais 223 milhões de leite.

Resumo da ópera: o número de animais mortos só vem crescendo e vai crescer ainda mais. Se, em 2003, as estatísticas mais modestas apontavam 50 bilhões de vítimas, hoje, no final de 2009, estamos, certamente, encerrando um ano em que tal número foi superado e vamos receber, de braços abertos, um novo ano em que, mais uma vez, o recorde será batido. Ano novo, vida nova? Infelizmente, penso que não: ano novo, velhos números; ano novo, idênticas atrocidades. Um interessante testemunho do século XIX pode ajudar a ilustrar a constância do banho de sangue em que vivemos imersos.

O romancista russo Leon Tolstói (1828-1910), por sua vez, levou a cabo a experiência à qual a maior parte de nós se recusa, aquela mesma experiência considerada pelo filósofo escocês John Oswald (1760-1793) como um alerta à sensibilidade natural do homem: Tolstói visitou um matadouro. O escritor, bem como qualquer vegetariano de qualquer outra época, estava acostumado a viver em uma sociedade erigida sobre a exploração animal. Já ouvira todas as razões antigas e conhecidas pelas quais, supostamente, matar animais para comer é aceitável e até natural, coisas como “Deus permite”, ou “todo mundo faz assim”. A respeito disso, escreveu ele:

Não existe mau cheiro, som, monstruosidade aos quais o homem não consiga se acostumar a ponto de deixar de ver, escutar e cheirar a aparência, o som e o odor do mal.

Tal convicção reforçou-se ainda mais com sua visita ao matadouro, descrita por ele nas seguintes palavras:

(…) na longa sala, já impregnada com o cheiro de sangue, só havia dois açougueiros. Um soprava a perna de um carneiro morto e batia no estômago inchado com a mão; o outro, um rapaz de avental emplastado de sangue, fumava um cigarro torto. (…) Depois de mim entrou um homem, aparentemente um ex-soldado, trazendo um jovem carneiro de um ano, preto com uma marca branca no pescoço, de patas amarradas. Este animal ele o pôs sobre uma das mesas, como se numa cama. O soldado velho saudou os açougueiros, que evidentemente conhecia, e começou a perguntar quando o seu patrão lhes permitia ir embora. O camarada com o cigarro aproximou-se com o facão, afiou-o na borda da mesa e respondeu que estavam de folga nos feriados. O carneiro vivo estava ali deitado, tão silencioso quanto o morto e inflado, a não ser por sacudir nervosamente o rabo curto e os lados a se alçarem com mais rapidez que de costume. O soldado baixou gentilmente, sem esforço, a cabeça levantada; o açougueiro, sem parar de conversar, agarrou com a mão esquerda a cabeça do carneiro e cortou-lhe a garganta. O animal tremeu, e o rabinho endureceu e parou de abanar. O camarada, enquanto esperava o sangue correr, começou a reacender o seu cigarro, que se apagara. O sangue corria, e o carneiro começou a agonizar. A conversa continuou sem a mínima interrupção. Era horrivelmente revoltante.

Para nós, hoje, seria um alívio (ainda que um alívio questionável) descobrir que os matadouros de agora são menos “revoltantes” do que aquele que Tolstói descreve. A verdade é bem outra. A frieza com que os animais são mortos é exatamente a mesma. São diferentes apenas duas coisas: hoje, os animais são mortos em escala industrial, no que poderíamos de chamar de verdadeiras “linhas de desmontagem”, que contam com as mais bizarras tecnologias (esteiras com ganchos para suspender as vítimas, serras elétricas, tonéis de escalda etc.); além disso, os matadouros não param mais nos feriados – funcionam noite e dia, ininterruptamente, para atender a imensa e crescente demanda por carne. O que mudou, em suma, foram os números, muito mais grandiloquentes do que seria capaz de imaginar o mais megalomaníaco dos genocidas.

Abro uma revista que assino e que acabo de receber em casa, uma publicação da comunidade judaica, e encontro mais uma matéria sobre os horrores perpetrados pelos nazistas durante a Segunda Guerra. Descubro que, apesar de o número exato de pessoas exterminadas pelos nazistas nos campos de concentração ainda ser objeto de pesquisa e debate, as estimativas mais avantajadas apontam para 3.5 milhões de poloneses não-judeus, 3.5 milhões de poloneses judeus, 2.5 milhões de judeus de outras nacionalidades, 6 milhões de civis eslavos, 4 milhões de prisioneiros de guerra soviéticos, 1.5 milhões de dissidentes políticos, 800 000 ciganos, 300 000 deficientes, 25 000 homossexuais, 5 000 Testemunhas de Jeová, fornecendo um total de 22 130 000 pessoas (sim, mais de 22 milhões). Faço mais um rápido cálculo mental e começo a rir: esse número representa mirrados 0,04% em comparação com os tais de 50 bilhões de animais mortos a cada ano. Súbito, a imensa tragédia do holocausto adquire contornos de brincadeira de criança. Olho para a televisão e vejo uma repórter alarmada informar que, apesar da constante queda nos números, mais de 2 milhões de pessoas ainda morrem em decorrência da AIDS todos os anos. Faço uma ágil regra-de-três, descubro que esse número – 2 milhões – é o número de animais oficialmente assassinados em apenas 20 minutos e caio na gargalhada. Aprimorando o ensaiado olhar de luto, a repórter passa à nova manchete, a qual ela própria define como “uma carnificina”: 38 mortos no feriado de Natal nas estradas federais de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Recuso-me a fazer qualquer conta sobre isso; naquele momento, a notícia soa-me completamente ridícula, algo que nem merece ser computado.

Como disse, em certos casos, a matemática torna-se capaz de trazer à tona tudo que há de pior em nós, seres humanos, inclusive a frieza perante a desgraça. É quase impossível não ser sufocado por tal número – 50 bilhões! –, frente ao qual todas as misérias humanas parecem ínfimas, desprezíveis, negligenciáveis, assim como aqueles centésimos e milésimos após a vírgula que são dispensados quando, em um problema matemático, enunciamos a resposta final. Não acho bonito, não é isso o que desejo, mas a frieza dos números toma conta de mim. Viro um cubo de gelo. Insensível.

É claro que a maneira mais decente de encarar esses funestos eventos, a matança de animais humanos e não-humanos, é pensar sobre o drama individual, sobre a experiência dolorosa de cada um deles, sobre a tortura física e mental que cada qual, intimamente, teve de suportar antes da morte. Quando resumimos (ou ocultamos) tudo isso através de números, deixamos de lado a real dimensão do drama e corremos o risco da insensibilização. É, de fato, uma pena que sejamos obrigados a conviver com estatísticas tão berrantes e macabras. E é ainda mais lastimável que, ao que tudo indica, essas estatísticas, no ano que se inicia, venham a ser ainda mais berrantes e mais macabras. Recuso-me, portanto, a festejar mais um ciclo de matança que se inicia. Enquanto todos estiverem fazendo a tradicional contagem regressiva para a chegada do novo ano, permanecerei calado. Minha contagem particular começará à meia-noite em ponto: um, dois, três, quatro, cinco… e vou contabilizando, em tempo real, os animais mortos nesse recém-nascido 2010. Mas a matemática, nessas horas, é implacável, e eu logo descubro ser impossível a tarefa: são mais de 38 000 assassinatos a cada segundo.

Ao redor do mundo, o ano já se inicia com a tétrica ceia, repleta de corpos chamuscados sobre as mesas, modesto prenúncio de tudo que está por vir. Paradoxalmente, as pessoas desejam paz umas às outras, com as bocas cheias de nacos de carne. Tenho vontade de repreendê-las, “Tirem o cadáver da boca para falar!”, mas fico quieto. Penso novamente em Tolstói, que há muito já alertava sobre quão vãos serão todos nossos anseios de paz enquanto a violência fizer parte de nossos atos corriqueiros. Dizia ele: “Enquanto houver matadouros, haverá campos de guerra”. Haverá mesmo.

Mais uma vez, os galináceos se salvarão, afinal ciscam para trás e, portanto, não é de bom agouro devorá-los em noite re réveillon; os porcos, no entanto, fuçam para a frente, e, por isso, tornam-se os defuntos mais cobiçados. O leitão da ceia é apenas um infeliz que se adiantou às estatísticas. Enquanto o porco fuça para a frente, fica para trás, bem para trás, perdendo-se na poeira da distância, qualquer sinal de escrúpulo ético.

Um novo ano se anuncia. Vai começar tudo de novo.




*Centro Vegetariano

** Planeta Orgânico

janeiro 01, 2010

O Esquizofrênico do Copacabana, por Rafael Bán Jacobsen

O Copacabana, cantina italiana prestes a completar 70 anos de história, é um dos mais tradicionais restaurantes de Porto Alegre. Consagrou-se, ao longo dos anos, como reduto da boemia e da intelectualidade porto-alegrense. Um de seus ilustres freqüentadores foi Lupicínio Rodrigues, o mais famoso compositor gaúcho de todos os tempos e um dos mais originais da MPB, por conta de contundentes baladas de dor-de-cotovelo. Uma de suas grandes paixões era o Grêmio Foot-Ball Porto-Alegrense, e, reza a lenda, foi ali, no Copacabana, em uma tarde de 1959, quando os bondes estavam em greve e haveria uma partida de futebol no Estádio Olímpico, que Lupicínio então escreveu o início do hino do seu time do coração: “Até a pé nós iremos / para o que der e vier / mas o certo é que nós estaremos / com o Grêmio onde o Grêmio estiver…”. Um dos mais apreciados pratos do Copacabana é a vitela assada com cebola e batatas rústicas.

Eu não sou boêmio, nem intelectual, não componho música de dor-de-cotovelo e nem como carne, mas gosto muito de ir ao Copacabana. Noite dessas, lá estava eu, saboreando meu antepasto de berinjela, meu macarrão di grano duro com molho pesto, tudo acompanhado por um encorpado e veganíssimo vinho tinto, e pensava em como, a rigor, ser vegano é uma questão de mínima boa vontade: muitas vezes, é possível encontrar deliciosas opções de alimentação mesmo nos lugares aparentemente mais inamistosos. Lá estava eu, saboreando minha refeição livre de crueldade quando, de repente, eu o vi, em uma mesa próxima, com seu indefectível chapéu panamá, debruçado sobre uma tábua de vitela, besuntado de gordura lustrosa: sim, era ele, o vereador amigo dos animais.

O vereador é bastante conhecido por lutar em várias frentes, muitas relacionadas à causa animal. Por diversas vezes, já se posicionou contra a utilização de cavalos como animais de tração, contra o extermínio nos centros de controle de zoonoses, a favor das campanhas de adoção de cães e gatos e da conscientização das crianças sobre esses e outros aspectos. Em entrevista a uma ONG de proteção animal, em 2004, declarou: “Não tem como acender uma vela para cada santo. Tem que ter lado. Eu tenho: defendo os bichos!”. E ainda: “A questão é geral. Temos que cuidar de todos os bichos.” Por coincidência, uma semana antes desse encontro, eu havia trocado alguns e-mails com o vereador amigo dos animais sobre um provável apoio à campanha “Segunda Sem Carne”, iniciativa da Sociedade Vegetariana Brasileira, em parceria com a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo, e com o apoio do Slow Food São Paulo, do Instituto Nina Rosa, da Revista dos Vegetarianos, do Greenpeace, entre outros. A campanha visa a estimular a população a abolir a carne do cardápio pelo menos por um dia na semana, o que, certamente, teria um impacto positivo na saúde da população e no meio ambiente (embora, é verdade, em nada – ou muito pouco – ajude os incontáveis animais criados e mortos para consumo). O vereador mostrou-se simpático à idéia, embora tenha se confessado “um fraco” por comer carne. Ressaltou ainda que, por essa razão, não tinha “muita moral” para defender a iniciativa.

Mesmo sabendo tudo isso, não pude deixar de me chocar ao vê-lo deglutindo o bezerro anêmico. Por que o fazia se, naquele mesmo estabelecimento, havia boas opções vegetarianas? Por que o fazia se, na mesa ao lado, estava uma outra pessoa que, mesmo sem ter imensa força de vontade, desfrutava de uma refeição livre de sofrimento animal? Seja como for, a atitude do vereador está longe de ser caso isolado: trata-se, apenas, de mais um exemplo da tal “esquizofrenia moral” descrita por Gary Francione.

Francione, nascido nos Estados Unidos em 1954, é um professor de Direito conhecido por seu trabalho sobre a teoria dos direitos animais e foi o primeiro acadêmico a lecionar esse tema em uma faculdade de Direito nos Estados Unidos. Francione defende o direito dos animais a partir do princípio da igual consideração. Como parte dessa discussão, Francione identifica aquilo que ele chama de nossa “esquizofrenia moral”, quando se trata de animais não-humanos. Por um lado, dizemos que levamos os interesses dos animais a sério. Francione aponta para o fato de que muitos de nós vivemos com companheiros não-humanos, os quais consideramos membros de nossas famílias e de cuja personalidade — sua condição de pessoas ou de seres com valor moral intrínseco — nunca duvidamos. Por outro lado, devido ao fato de os animais serem tidos como propriedade, eles permanecem sendo coisas que não têm outro valor fora aquele que escolhemos lhes dar, e cujos interesses protegemos apenas quando fazer isso nos traz um benefício — geralmente econômico. Ou seja: no tratamento com os outros animais, a postura humana tende a ser incoerente. Como melhor explica o ativista pró-animal Nuno Franco, em texto publicado no site da União para Proteção dos Animais (UPPA):

“A chacina de focas que todos os anos ocorre no Canadá ou as críticas ao uso de peles e à sua indústria representam alguns exemplos desta conduta incoerente. É deveras curioso que a maioria das pessoas que se pronuncia sobre os maus tratos a cães e gatos, sobre a morte das focas ou sobre o uso de peles, se remeta ao silêncio quanto ao tratamento das galinhas e porcos, sobre o abate de vitelas ou leitões. O que torna umas práticas condenáveis e outras aceitáveis e o que coloca alguns animais na nossa esfera de preocupação e consideração moral enquanto remetemos outros à indiferença é algo contraditório e difícil de compreender, e é exatamente isso que Gary Francione define como esquizofrenia moral.”

Sempre me intrigou o fato de haver pessoas cheias de empatia com os animais, pessoas que, inclusive, “tentam” ser vegetarianas, mas que, de quando em quando, reclamam que foram “forçadas” ou “obrigadas” pelas circunstâncias a comerem carne. Nunca entendi bem o que querem dizer com essas palavras tão fortes: “forçadas”, “obrigadas”. Na grande maioria dos casos, imagino, as pessoas não querem dizer que alguém as tenha ameaçado com uma pistola na cabeça (“Ou você come essa chuleta, ou morre!”), mas, isto sim, aludem ao fato de que, se não comessem carne em dado momento, teriam de pular aquela refeição. Não conheço ninguém que tenha morrido por pular uma refeição, mesmo estando com fome. De qualquer modo, nessas horas, se o estômago reclamar, é bom pensar no que é mais terrível: o ronco da barriga ou o grito dos animais assassinados para virarem arremedo de comida. Outras vezes, as pessoas se veem “forçadas” a comerem pedaços de bichos destroçados simplesmente porque não sabem dizer “não”. É fato: em uma sociedade hipócrita, em que todos são obrigados a sorrir o tempo todo e dizer sempre “sim”, recusar algo pode soar bastante antipático. Todavia, devemos lembrar que a capacidade de dizer “não” e de aceitar o “não” alheio é critério básico de civilidade, é pilar de convivência em todo grupo que preze as características de cada indivíduo, que aceite idiossincrasias e não flerte com a pasteurização e formatação de um pensamento coletivo. Dizer “não” e recusar é uma arte que leva uma vida inteira para ser aprendida e aperfeiçoada. Uma arte que precisa ser cultivada o tempo todo, pois nunca desaparece o risco de que possamos cair em tentação, fraquejar diante do canto da sereia e dizer sim, quando, na verdade, desejaríamos dizer não. Quando as pessoas adotam a política do “deixa pra lá” e se mantêm passivas diante das situações que as incomodam, o resultado pode ser desastroso. Nesse caso concreto, o de recusar ou não o cadáver de um animal, se o resultado não for diretamente desastroso para a pessoa, com certeza o será para os animais.

Quando há opção, não há ingenuidade. Quando não estamos com a pistola apontada para a cabeça, temos a capacidade de fazer escolhas. Nesse caso, ninguém é obrigado ou forçado a nada. Como alerta a filósofa Sônia Felipe em seu texto “Ética na alimentação: o fim da inocência”:

“O ato de comer perde a aura de inocência no momento em que os humanos têm à sua disposição as mais diversificadas fontes naturais de nutrientes vegetais, mas insistem em encher seu prato de pedaços de carcaças que constituíram organismos de indivíduos animais que viveram uma experiência particular de vida. Não há inocência alguma no ato de comer, quando o buffet do qual nos servimos oferece aos comedores uma variedade de preparados nos quais os produtos derivados do abate intensivo de animais e os subprodutos dos restos desse abate são apresentados lado a lado com produtos não derivados de animais. A inocência acaba quando, mesmo tendo diante de si alimentos nutrientes de origem vegetal, o comedor ‘escolhe’ pôr em seu prato porções derivadas de animais.”

Para defender coerentemente a causa animal, precisamos policiar nossos próprios hábitos com um mínimo de boa vontade e nos vacinarmos contra a esquizofrenia moral. E, para esse mal, a vacina é ressuscitar a necessária e esquecida arte de dizer não.



Rafael Bán Jacobsen é físico, professor, escritor, poeta e músico, além de atuante defensor dos direitos animais.

Fonte

dezembro 05, 2009

Tende piedade de nós

 por Rafael Bán Jacobsen


Para quem não sabe, costumo dedicar pelo menos duas manhãs de sábado por mês para divulgar o veganismo e os direitos animais, distribuindo e vendendo materiais pertinentes a tais temas e também conversando com o público em uma famosa feira ecológica aqui de Porto Alegre. Essa última parte – conversar com o público – costuma ser a mais difícil.

Em um dos últimos sábados em que estive na tal feira exercitando meu modesto ativismo, uma senhora carrancuda aproximou-se, observou em silêncio os cartazes e panfletos exibidos na banquinha, franziu o cenho e, enfim, perguntou: O que é que tu comes? Não, não havia qualquer resquício de curiosidade no tom da indagação; a fala tinha entonação bem mais parecida – imagino – com aquela dos agentes do DOPS ao interrogarem um jovem e cabeludo estudante de filosofia detido durante uma passeata contra o governo Geisel, com três baseados e um exemplar de “O Capital” no bolso da jaqueta.

Tentei sorrir para ela, mas não consegui. Minha voz, ao menos, saiu macia: Eu sou vegetariano, então não como nada que tenha origem animal. E o que é que tu comes?, repetiu ela, os olhos faiscando. Comecei a enumerar – arroz, feijão, lentilha, soja, grão-de-bico, berinjela, espinafre, batata, cenoura, tomate, abóbora –, mas não foi possível ir muito longe, pois logo ela me interrompeu: Eu quero saber o que tu comes de proteína. O sargento perdia a paciência. Pois então, senhora: como arroz, feijão, lentilha, soja, grão-de-bico. Fui cortado aos berros: Eu perguntei o que tu comes de proteína; tu és surdo ou o quê? Invoquei a didática: Na verdade, senhora, essa idéia de que “carne é sinônimo de proteína e proteína é sinônimo de carne e não se fala mais nisso” está incorreta; todos aminoácidos essenciais podem ser encontrados em fontes vegetais.

A rigor, se bem me recordo, nem cheguei a pronunciar a palavra “vegetais”, pois ela não estava muito interessada em didática ou aminoácidos, queria tocar adiante o interrogatório: E vacina, tu tomas? Quis explicar a ela que, na minha modesta compreensão, não estava assim tão convencido da imprescindibilidade de todas as quatrocentas vacinas que os órgãos de saúde tentam, a todo custo, injetar na população; confessei que não aderira a várias campanhas de vacinação em massa, inclusive as últimas, contra meningite e rubéola; porém, quando eu era criança, meus pais haviam me dado algumas vacinas sim – mostrei, inclusive, uma marquinha que tenho no braço, de alguma agulhada dessas, tentando criar um mínimo de cumplicidade com aquele ser cujas faces já se contorciam de raiva ou algum sentimento parecido. Para tentar me fazer um pouco mais humano aos olhos de minha interlocutora, admiti que nem todas minhas motivações para fugir das vacinas eram assim tão filosóficas, nem tudo era devido a uma postura de questionamento à indústria farmacêutica, à exploração animal implícita no processo ou ao sistema de “saúde” pública e suas desastradas (e dispendiosas) políticas: eu tinha um medo danado de agulha, fobia mesmo. Basta ver aquela coisinha fina, metálica e pontiaguda para meu coração disparar, as pernas ficarem bambas, a pele embranquecer feito cera.

Então quer dizer que tu vais pegar tétano, difteria, tuberculose e tudo mais?, continuou a senhora, impaciente. Eu respondi: Olha, até hoje não peguei e não creio que vá pegar, mas, se acontecer, dá para tratar, não é? Para variar, ela respondeu com outra pergunta: E teus filhos tu vais criar desse jeito? Que jeito, senhora? Desse jeito: sem carne, sem vacina.

Foi então que cometi o maior dos pecados: disse que não pretendia ter filho algum, pois, além de já haver pessoas demais no mundo (consumindo, explorando, sujando, poluindo, degradando), eu acreditava que o planeta Terra seria um lugar bem mais aprazível sem a presença de um homo sapiens sequer sobre ele. Ademais, expus minhas reflexões pessoais acerca do vazio da existência, da escassez de sentido em tudo aquilo que se passa entre a concepção e o último suspiro, e coroei com uma clássica citação de Machado: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.” No entanto, mais uma vez, quis demonstrar que nem tudo em minha postura era guiado pela razão e pela vontade de fazer o bem, minimizando os danos ao planeta e evitando que mais um ser viesse penar nesse nosso purgatório telúrico: havia, sim, um quê de egoísmo na minha decisão de não procriar. Sempre preferi viagens a fraldas, pós-graduação a maternal e colégio, automóveis a triciclos, boa comida a papinha, James Joyce a “Os 3 Porquinhos”, Rachmaninoff a “Xuxa só para Baixinhos”. Arrematei sacando da mochila o livro que estava lendo na época – “O Filho Eterno”, de Cristovão Tezza, um furacão arrebatador de praticamente todos os mais importantes prêmios da literatura em língua portuguesa – e li o seguinte trecho para a azeda senhora:

A primeira criança de um casamento é uma aporrinhação monumental – o intruso exige espaço e atenção, chora demais, não tem horários nem limites, praticamente nenhuma linguagem comum, não controla nada em seu corpo, que vive a borbulhar por conta própria, depende de uma quantidade enorme de objetos (do berço à mamadeira, do funil de plástico às fraldas, milhares delas) até então desconhecidos pelos pais, drena as economias, o tempo, a paciência, a tolerância, sofre de males inexplicáveis e intraduzíveis, instaura em torno de si o terror da fragilidade e da ignorância, e afasta, quase que aos pontapés, o pai da mãe. E é uma criança – como todo recém-nascido – feia. É difícil imaginar que daquela coisa mal-amassada surja como que por encanto algum ser humano, só pela força do tempo.

Mais uma vez, não cheguei ao final do que pretendia dizer. Lá pela metade da leitura, a mulher já urrava: Então quer dizer que tu não vais ter filhos, é? Sim, eu confirmei, não vou. Foi então que, antes de virar as costas e partir em passo quase marcial, ela lançou sua derradeira frase, triunfante, articulando com gosto cada palavra: Eu tenho pena de ti! Caprichou na pronúncia de cada fonema, especialmente o “p”, cuja vocalização se fez través de um nítido espocar dos lábios, acompanhado de alguns perdigotos, e foi embora.

Fiquei ali, basbaque, tentando digerir aquela súbita declaração de piedade. Provavelmente, a senhora enxergara, no somatório de minhas atitudes e posturas, a pavimentação de um caminho reto e direto para a infelicidade. Por isso, por antever minha miséria vindoura, apiedara-se de mim. Para ela, com certeza, a imagem da plena felicidade era uma bela churrascada com crianças correndo por todos os lados (todas bem vacinadinhas, claro), e eu jamais desfrutaria de tal paraíso – eu era, portanto, um ser digno de pena. Fiquei indignado. Quem ela pensava que era para se dar o direito de ter pena de mim? Porque sim: a sua piedade pressupunha uma hierarquia – em algum critério, ela se via em posição de superioridade em relação a mim, e a consciência dessa superioridade se manifestava através da misericórdia. Ela estava por cima, e eu por baixo (sem nenhuma conotação impudica, por favor). Ela era a bem sucedida artista plástica, casada com um rico empresário, que, passeando pelas ruas da cidade em seu carro importado à caminho do shopping, vê um sujeito maltrapilho – eu – caído na calçada, chafurdando na lama fria em pleno entardecer invernal e sente pena, muita pena. Assim ela me via: um fracassado, um excluído, um ser sujo. Com meu orgulho ferido, pensei em ir atrás dela e dizer umas verdades, mas ela já havia desaparecido entre os transeuntes.

Foi quando veio até mim um senhor que, quase todos os sábados, visita a banquinha e troca algumas palavras comigo. Trazia uma espiga de milho recém-cozida, comprada em outra banquinha mais adiante, e, estendendo-a para mim, disse: É para ti, guerreiro; passei, te vi aí sozinho nessa véspera de feriado, trabalhando pela causa, e fiquei com pena – tem que ter pelo menos alguma coisa boa para comer, não é mesmo? Ele nem me deu tempo para agradecer, parecia apressado. Entregou-me a espiga e se foi, sorrindo e acenando.

Agora, eu estava duplamente confuso: mais alguém sentira pena de mim. De fato, era um sábado em que a cidade estava muito vazia, quase ninguém estava trabalhando, milhares de pessoas estavam refugiadas nas praias até terça-feira, dado que segunda era dia de feriado municipal em Porto Alegre, mas eu estava ali: cumprindo minha rotina, fazendo minha parte, lutando – ainda que timidamente – pelas coisas em que acredito. O segundo arroubo de piedade daquela manhã, implicitamente, reconhecia tudo isso: eu poderia estar na praia, de pernas para o ar, tomando água de coco, poderia estar em casa dormindo, mas, por vontade própria e movido por minhas convicções, eu estava ali, na labuta. Aquele segundo sentimento de piedade em nada me escandalizou; ao contrário, fez com que eu me sentisse surpreendentemente bem. Comi o milho com prazer, pensando que, na verdade, sentimentos como pena, piedade, comiseração, misericórdia, clemência e tantos outros parecidos não deveriam ser encarados como sentimentos negativos. Em essência, são coisas boas: nós, humanos, em nossa imperfeição e arrogância, teimamos em corrompê-los associando-os a outros sentimentos bem menos nobres, como soberba, desprezo, asco, desdém. Não há nada mais belo do que a comiseração (o nome pomposo para a boa e velha “pena”), isto é, a compaixão sincera experimentada diante dos infortúnios alheios, emoção que experimentamos quando nos colocamos no mesmo patamar do outro e com ele dividimos alguma dor ou dificuldade que, em princípio, não é nossa. Estar ali, em um sábado abafado, trabalhando enquanto muitos outros se divertiam, era, em certa medida, um infortúnio ou, pelo menos, uma dificuldade – e o senhor do milho sabia disso, assim como eu sabia. Mas era ali que eu queria estar, e isso o senhor do milho também sabia, mas ele, colocando-se no meu lugar, sabia ainda que era possível fazer algo para que as minhas horas ali passassem de modo mais agradável.

Estamos calejados de modo a encarar a piedade sempre como algo ruim, mesmo no contexto da luta pelos direitos animais. Não concordo totalmente. Certa vez, alguém me disse que “peninha dos bichinhos só serve para fazer a Barbie virar ovolactovegetariana por uma semana”, ou seja, que sentir pena dos animais não é, via de regra, capaz de fazer alguém abolir a exploração animal de sua vida de modo consistente e duradouro. Penso que, de fato, o caminho da razão é o mais promissor: um escrutínio ético rigoroso acerca dos limites para utilização de animais não-humanos para nossos particulares fins, de preferência guiado por farta bibliografia de grandes pensadores, dificilmente falhará em apontar para o sujeito o caminho do veganismo, da abolição, e mais dificilmente ainda falhará em explicitar a validade imperativa dessas posturas. Mas nem todos estão dispostos a essa jornada, que é longa, complexa e, por vezes, cansativa. Por esse motivo, ainda quero crer no sucesso da piedade em certos casos. Se a razão e a reflexão filosófica são o caminho mais seguro, a “pena dos bichinhos” ainda é um atalho. Assim como certos pensadores, eu ainda teimo em acreditar incompleta qualquer ética alicerçada exclusivamente na razão, sem espaço algum para a compaixão. Como não sou filósofo, peço socorro para os profissionais da área e, na esperança de me fazer entender, transcrevo a seguir um trecho do artigo “Man-eating aliens” (isso mesmo, “Alienígenas que comem gente”), de autoria de William Davis, da Universidade de Auburn (Journal of Value Inquiry, v.10, 1976, p.178-185). Nesse fragmento, Davis revisita o trabalho de outro filósofo, o norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), contrapondo a visão de moral deste à de Immanuel Kant (1724-1804):

Sim, precisamos “amar aos outros como a nós mesmos”. Mas como isso ocorre? Como amamos a nós mesmos? Através da razão? Não, por natureza. E nosso amor por outras pessoas é, de maneira similar, baseado em elementos de nossa natureza. Esse amor pode ser servido pela razão, mas não está alicerçado sobre a razão. (…) A razão busca apreender a lei que está em todas as coisas. Busca enxergar os princípios gerais sobre os quais a natureza opera. Mais do que isso, a razão busca trazer racionalidade, consistência, generalidade para nossas próprias vidas e para aquelas partes da sociedade e da natureza sobre as quais temos influência. Mas a razão é guiada, em todos os seus movimentos, pelo sentimento. A razão é guiada por um tipo instintivo de poder de adivinhação. Ou seja, os homens são por natureza dotados de uma primitiva percepção de como as coisas são e de quais caminhos as coisas tendem a seguir. A razão, sem o seu alicerce na percepção e no sentimento, perderia todo senso de relevância. É a nossa percepção geral de como as coisas são que, por si só, evita que a razão vague a esmo, cegamente, entre o infinito número de hipóteses errôneas com as quais se depara a cada instante. O que é interessante a respeito disso é que, para Peirce, os movimentos da razão corram tão paralelamente aos movimentos da vida moral. O sentimento moral e a vida moral constituem, para Peirce, uma contínua expansão de nossa natureza simpática, uma generalização de nossos interesses pessoais junto com os interesses dos outros, uma subordinação de nossa individualidade e particularidade à contínua expansão dos interesses do todo. Em resumo, tanto a razão quanto a moralidade nos dão o mesmo comando: generalizar. (Na verdade, embora a palavra-chave para Kant fosse “consistência”, refletindo, ao mesmo tempo, um ingrediente fundamental tanto na razão quanto na moralidade (trate os outros como gostaria de ser tratado, etc.), Kant também enxergava a razão como uma tendência generalizante. Se Kant pudesse ter se colocado em posição capaz de reconhecer a importância do elemento emocional na vida moral (amor) e na vida racional, ele poderia ter dito quase a mesma coisa que nos diz Peirce.) (…) as faculdades da mente não são tão separadas e separáveis quanto o nosso discurso necessariamente pressupõe. Em outras palavras, uma faculdade psicológica nos permite separar o coração do intelecto de uma maneira que pode ser distorciva de uma realidade sem inteiriça, fluida e orgânica. Ademais, esse argumento é um enorme aperfeiçoamento sobre a posição puramente kantiana. Eu não sou o único a pensar que é um terrível defeito não haver espaço para a compaixão ou amor em seu sistema (filosófico). Para Kant, a maneira pela qual a moralidade se conecta com a razão é puramente abstrata: enxergamos uma lei moral da mesma maneira que enxergamos a verdade de uma proposição em geometria e temos a mesma obrigação de aquiescer em ambos os casos. Kant não tinha noção de que o intelecto extrai sua vida de nossa natureza sensível.

Estava aqui, em frente ao computador, refletindo sobre o caráter dual da pena, quando recebi um e-mail de um amigo, indicando um vídeo de uma ação pró-vegetarianismo realizada já há algum tempo no Rio de Janeiro: http://www.youtube.com/watch?v=xWCtKUvwHI0. Nele, minhas amigas e ativistas T. e B. inflitram-se em uma oficina de culinária para crianças. O objetivo da oficina era ensinar aos pimpolhos como fazer hambúrgueres. Lá pelas tantas, T., com toda sua típica gentileza, pega o microfone e diz: Oi, criançada! Vocês sabiam que estão mexendo em vaquinha morta, bezerrinho morto e franguinho morto? A B., ansiosa por dar sua contribuição, assume o microfone, brandindo algumas vaquinhas de pelúcia: Cadáver! Cadáver! É galinha morta! O que tá por trás do hambúrguer de vocês é animal assassinado. Por que é que eles não ensinam? É vaca! É vaca morta! É bicho morto que tá aí, ó! As manifestações são rapidamente sufocadas por uma onda de vaias e exclamações de “sai fora! sai fora!” que começa com os adultos presentes e logo ganha adeptos entre as crianças. A seguir, as ativistas são “gentilmente” escoltadas até a saída, e a normalidade retorna ao lúdico evento, com o animador abestalhado retomando o microfone e falando: Quem tá com vontade de comer hambúrguer? Quem veio pra cá pra aprender a fazer hambúrguer? Então vamos fazer hambúrguer! Todos aplaudem. As crianças riem, dão gritinhos de alegria, sacodem os braços. Viva! Vamos fazer hambúrgueres!

Ao ver o vídeo, senti reforçada minha convicção de não ter filhos. Ver todos aqueles pestinhas barulhentos com as mãozinhas atoladas na pasta de vaquinha morta me revoltou. Eu seria capaz de tolerar as maiores barbaridades vindas de um filho, mas jamais conseguiria conviver com a transformação de um filho criado vegano em um filho carnívoro. Jamais. Podem me chamar de intolerante, radical, xiita, o que quiserem, mas é a pura verdade. Por mais que me esforçasse em demonstrar ao meu filho as belezas, as delícias e as verdades de uma vida vegana, ainda acho que o mundo tem perfídia de sobra para corromper qualquer um, por mais bem educado que seja, e eu não estou pronto para suportar o golpe de ver um filhinho criado à base de tofu se empanturrar com uma costeleta de cordeiro bem gorda. Além do mais, quem gostaria de ser criado por um intolerante, radical e xiita feito eu? Vasectomia já!

Mas outro sentimento mais relevante me tomou de assalto com esse vídeo. Senti pena das duas moças. Muita pena. Mas juro que é uma pena daquele segundo tipo, um sentimento de honesta comiseração que me colocou ao lado de minhas amigas, não acima e nem abaixo delas. Ao ver as imagens, experimentei com elas a frustração de viver em um mundo tão hostil aos conceitos éticos mais básicos, cercado por pessoas que pouco pensam, pouco questionam e muito apedrejam aqueles que o fazem (com sorte, apenas vaiam, xingam ou jogam tomates). Passou, em minha mente, um velocíssimo slide show com todos aqueles momentos em que eu também fui ridicularizado ao erguer a voz para defender aqueles que não a tem, precisando me contentar com o pensamento de que, talvez, em meio às vaias ou à indiferença, eu tenha “plantado uma sementinha” na cabeça de alguém. Frustrante, patético. Senti pena das minhas duas amigas, senti pena de mim mesmo e de todos os ativistas que seguem por aí, feito nós, dando murros em ponta de facas. Dói bastante, e eu sinto pena. Por falar nisso, alguém aí aceita um milho verde sem manteiga?



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Rafael Bán Jacobsen é físico, professor, escritor, poeta e músico, além de atuante defensor dos direitos animais. Nasceu em Porto Alegre, no dia 21 de maio de 1981. Vegetariano ativista, é fundador e atual coordenador da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) em Porto Alegre, proferindo palestras sobre o tema em encontros nacionais (site www.svbpoa.org).