fevereiro 23, 2010

"The Cove" - A Baía da Vergonha - legendado

O clímax do documentário “The cove” está em imagens obtidas numa espécie de operação de espionagem na cidade de Taiji, no Japão. Mas não são cenas agradáveis: escondidos dos olhares externos, pescadores simplesmente chacinam golfinhos, com o objetivo de vender sua carne para consumo. Por um lado, filmar a crueldade contra os animais representou a consagração para o projeto do jornalista americano Louie Psihoyos. Por outro, as imagens também trouxeram tristeza para o ambientalista Psihoyos, fundador da organização Sociedade de Preservação Oceânica.

A explicação para que “The cove” tenha sido um dos mais bem sucedidos documentários de 2009 talvez esteja justamente nessa ambiguidade de pontos de vista de seu diretor. Com o filme, Psihoyos estreou em cinema no Festival de Sundance, há um ano. A plateia deixou a sala em choque, horrorizada não apenas com o que era feito com os golfinhos, mas também com as consequências para o homem do consumo de uma carne altamente tóxica. Desde então, “The cove” acumulou 21 prêmios, além da indicação e do favoritismo na disputa pelo Oscar de melhor documentário de 2009. A longo prazo, porém, a expectativa de Psihoyos é por um prêmio bem maior.

— Comecei a fazer este filme para tentar salvar os oceanos. Então, não espero muita coisa do Oscar além de fazer com que a mensagem repercuta. Nós estamos acabando com os animais selvagens e destruindo a Terra — diz ele, em entrevista por telefone ao GLOBO.

O projeto de “The cove” começou a ser desenhado quando Psihoyos conheceu Ric O’Barry. Aos 59 anos, O’Barry tem uma história tão impressionante que parece tirada de um filme de ficção. Nos anos 1960, ele foi o treinador dos cinco golfinhos que representaram um dos mais famosos cetáceos de todos os tempos, Flipper. O convívio, porém, fez com que o treinador percebesse que o cativeiro era maléfico aos animais. Aí veio a ironia: de um dos responsáveis pela popularização dos golfinhos e pela decorrente criação de aquários ao redor do mundo, O’Barry “mudou de lado”, transformando-se num ativista que volta e meia invade os mesmos aquários que outrora seu trabalho incentivava.

O primeiro encontro entre Psihoyos e O’Barry ocorreu numa convenção na Califórnia. O ativista era um dos principais convidados do evento, onde falaria sobre a situação dos golfinhos no mundo. Mas sua palestra foi cancelada a pedido do patrocinador, o parque aquático Sea World.

— Sou jornalista há bastante tempo e vi que ali havia uma história interessante. Então fui falar com Ric. Ele me descreveu as chacinas de golfinhos em Taiji. Eu fiquei curioso, quis fazer alguma coisa a respeito. Então ele disse que eu poderia acompanhá-lo até o Japão. E eu fui — conta Psihoyos.

As primeiras cenas do filme mostram a chegada da dupla à minúscula Taiji, ao sul do Japão. De acordo com o filme, Taiji é o maior fornecedor de golfinhos para parques e aquários no mundo. As referências aos animais são comuns na cidade, com direito a estátuas públicas, quadros e um museu. Mas era o que estava escondido que interessava: um pequeno fiorde (cove, em inglês), cujo acesso era isolado por grades e placas.

— Eu queria contar os dois lados da história. Mas eles simplesmente não queriam contar o lado deles. Eles faziam de tudo para nos impedir de chegar perto das áreas proibidas, morriam de medo de que alguém pudesse levar a história à tona. Fomos ameaçados, a polícia nos seguia, e os políticos pressionavam para que fôssemos embora. Estavam sempre buscando alguma justificativa para nos prender. O filme não chega a mostrar todos os riscos pelos quais passamos. Mas eu estou falando de caçadores que andavam para lá e para cá com arpões — lembra Psihoyos.

Vigiados por todos os cantos, o diretor fez a escolha que mudou completamente o projeto. Decidido a registrar o que acontecia no fiorde, ele levou para o Japão uma equipe de técnicos em efeitos especiais, mergulhadores e até mesmo um controlador de balão. O documentário, que até então se limitava ao filme-denúncia-ecológica, virou um thriller de ação coletiva nos moldes da antiga série “Missão impossível”. Até a música que toca enquanto a equipe de Psihoyos invade o fiorde à noite, para instalar câmeras de vídeo controladas remotamente, lembra os filmes de espionagem.

— Eu já havia feito reportagens usando câmeras escondidas. Mas aquilo foi diferente. Não tínhamos ideia do que iríamos encontrar. Quando vi as imagens, fiquei horrorizado. A primeira coisa que fizemos foi mandar as fitas para fora do país. Tínhamos um integrante da equipe cuja função era exatamente tirar o material do Japão — diz ele.

Além da matança, um dos males denunciados por “The cove” é o uso da carne dos golfinhos como alimento. De acordo com Psihoyos, todos os animais marinhos estão contaminados pelo mercúrio que se acumula nos oceanos devido à poluição. A situação se agrava nos animais maiores, como golfinhos, baleias, atum e tubarões.

— Se você quer que seu bisneto possa comer peixe daqui a algumas décadas, é preciso fazer alguma coisa agora. Eu aconselho crianças e mulheres grávidas a terem um cuidado redobrado com o peixe que comem — alerta o diretor. — É importante ressaltar que o problema não ocorre apenas no Japão. Todos os países, provavelmente também o Brasil, abusam de seus animais. A lógica é a de que, quanto mais animais houver, mais alimento será vendido. A taxa de partos de vacas nos EUA é cinco mil vezes maior do que o recomendado pela lei.

“The cove” ainda não tem distribuição garantida no Brasil, o que certamente deve mudar caso as apostas sobre sua vitória no Oscar se concretizem. Psihoyos espera, ainda, que ele consiga exibir o documentário no Japão até o fim do ano.
Assista o vídeo legendado em português aqui

A COVA (The Cove) Legendado BR

Fonte do texto: O Globo
Dica de vídeo: Veg-Infos
via Planeta vegetariano

Trailer

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