dezembro 01, 2009

Libertação

Como todos os movimentos sociais, o dos direitos animais se apóia racionalmente numa perspectiva filosófico-jurídica. Seus fundamentos abrangem também enfoques multidisciplinares cujo ponto em comum é pôr fim ao preconceito e à discriminação baseados em uma característica arbitrária. Em 1970, o psicólogo inglês Richard Ryder chamou de “especismo” a esta discriminação baseada na espécie, traçando um paralelo com o racismo e o sexismo. Em suas palavras: “Speciesism means hurting others because they are members of another species". [The Animals’ Agenda, Janeiro / Fevereiro de 1997]. Especismo significa causar dano aos outros porque eles são membros de outra espécie. Legalmente, esta barreira permite separar os animais humanos de todos os animais não-humanos.


De um lado, resguarda-se até o mais trivial interesse de uma espécie. Do outro, falta proteção ao mundo animal inteiro, até para os interesses mais básicos e fundamentais. A vida, a dor e a liberdade dos não-humanos são deliberadamente ignoradas. Como se faz com a natureza em seu conjunto, tratam-se os animais feito “coisas” para o benefício da espécie humana. O século XXI está mostrando o custo real desse suposto “benefício”.



Para justificar a exploração dos animais, para levar uma vida de sofrimento a bilhões deles, para destruí-los diariamente e transformá-los em um alimento desnecessário à sobrevivência da espécie humana, para tratá-los como escravos, para reduzi-los a coisas, buscam-se “direitos” que colocariam os humanos na categoria de “superiores”. Falta-lhes capacidade de comunicação, dizia Descartes. Falta-lhes pensamento abstrato, apontava Locke. Falta de racionalidade, na idéia de Aristóteles. A estes grandes filósofos faltava conhecimento sobre os animais. Todos os mamíferos têm suas próprias formas de comunicação e sua capacidade de raciocínio é suficiente para que sua espécie seja o que tem de ser. Os grandes símios aprenderam a linguagem dos surdos-mudos e, através dela, contaram como sentem e pensam. Muitos animais são mais inteligentes do que uma quantidade de humanos. A superioridade não é uma realidade científica, mas uma construção cultural.


Levar os animais a sério significa deixar de considerá-los meios para nossos fins e incluí-los na esfera das considerações éticas humanas. Nas palavras de Ursula Wolf: “..são objetos da moral todos os seres que necessitam de proteção, ou seja, aqueles pelos quais é possível ter consideração, e eles o são enquanto forem vulneráveis. Ao mesmo tempo, o objeto da consideração moral seria as distintas formas de vulnerabilidade e sofrimento”.
Por meio da filosofia, do direito, dos estudos de gênero, da antropologia, da etologia, da literatura e outras disciplinas, é possível fazer uma análise profunda das causas da origem e da manutenção da escravidão, e do dano aos animais. A ética biocêntrica, apoiada na capacidade dos seres sencientes que compartilham com o humano o enigma da vida, encontra suporte intelectual em todas essas disciplinas. Mas, ainda que o embasamento da libertação animal evite a referência à simpatia, as relações cotidianas com os animais estão embebidas de emoções culturais e pessoais. Dessa forma, a aplicação do pensamento abstrato coexiste com o acostumar-se à depreciação e ao desconhecimento de suas vidas. Justamente o fato de nos afastarmos do animal vivo para considerar só o produto derivado dele é uma das razões pelas quais não conseguimos medir o alcance de nossas escolhas cotidianas.



Muitas vezes, enquanto não passar por uma situação de sofrimento intenso e/ou quase morrer, o humano é incapaz de se compadecer do Outro ser que sofre, seja este da espécie que for. Para quem argumentar que “não sabe se um animal sofre”, recomendamos não só leituras científicas como também uma aproximação sensível e concreta dos animais vizinhos. O sofrimento e o assassinato de milhões de animais são um dano no presente contínuo. E não há razão que possa justificá-lo.


Nesta seção você encontrará um material escrito ou traduzido especialmente para este sítio por integrantes da Ánima e colaboradores. O Escriba contém escritos em estilo informal ou literário e inclui textos de narrativa. Abordagens, surgido no ano 2000 com textos básicos, é hoje um Centro de Estudos para a teoria e prática dos Direitos Animais. A seção Animais contém alguns dos trabalhos veiculados de várias formas; inclui entrevistas, publicações musicais, música e vídeos.

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Bem-estarismo e Direitos animais
Utilitarismo e bem-estarismo
O liberacionismo e atual sociedade escravagista
Direitos animais: O enfoque abolicionista.

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