fevereiro 01, 2011

O conceito de “comer carne” redefinido

O que há num nome? Uma rosa com qualquer outro nome teria seu cheiro mais doce? Esta foi a questão famosa de Shakespeare, mas me pergunto se, por outro lado, esta mesma pergunta poderia ser aplicável ao ato flagrante de comer carne… O que há num nome? É uma maneira de esconder a realidade do que está por trás do que há no prato. Conhecemos exemplos em que a linguagem ajudou na distinção entre as classes. No passado, a aristocracia inglesa jantava carne de carneiro, mas os pobres comiam o cordeiro. As palavras não apenas distinguem o que é para os ricos e pobres, elas disfarçam a verdade por trás de comer animais.

O que aconteceria se chamássemos uma coisa do que ela realmente é? Será que teríamos uma mudança de atitude? Será que o véu seria levantado o bastante para que mudássemos nosso comportamento? E se em vez de nos referir à carne como alimento, deixássemos de considerar totalmente que os animais sejam incluídos na categoria de “comida”. Isso seria um grande começo. E se parássemos de usar a palavra “ovo” e o chamasse de “envoltório de reprodução que tem a capacidade de se transformar em um novo ente”? E se expuséssemos a realidade do “leite”, chamando-lhe “secreções das glandulas mamárias”? Eu me pergunto se ele alteraria o sabor percebido. E se chamássemos a carne de “músculo do animal morto”? E no caso em que a palavra para o animal vivo é igual à do animal consumido (como “frango, “camarão ou “peixe”)? Pergunto-me, por exemplo, se seria apetitoso distinguir os animais vivos como “galinha” do animal morto o qual as pessoas jantam, chamando-lhe “músculo de galinha morta”? Não estou dizendo que temos de ser melodramáticos em relação a isso. Nós não precisamos dizer “carne podre”, apenas apontar que se trata do músculo de um animal morto deve ser suficiente.

Pense em todas as palavras que são usadas para dissociar completamente o conceito de alimento da vida, dos animais sencientes dos quais é derivado: carne de vaca, porco, vitela, carneiro, veado, caviar. Poderíamos dizer o que mostra a realidade: o “cadáver de vaca”, “cadáver de porco”, “descendentes do sexo masculino de uma vaca produtora de leite”, “cadáver de ovelha”, “cadáver de veado”, “peixes potenciais não fertilizados”, respectivamente. Então, para ir um passo além, há nomes exóticos que o som faz parecer como se houvesse prestígio, em vez da realidade de que você apenas come animais mortos: bife de Nova York, Filet Mignon, Chicken Cordon Bleu.

É claro que não basta parar com a carne animal. Deve-se também aplicar a outros ingredientes de origem animal, pois são uma verdadeira fonte de confusão, mesmo para o mais bem-intencionado vegetariano: coalho (revestimento do estômago de uma vaca ou porco) ou gelatina (substância glutinosa da carne cozida, unhas, olhos, pele etc. de uma vaca ou porco).

Meu irmão e sua esposa acabaram de ter um bebê, e agora que Benjamin tem 8 meses, ele está lentamente conhecendo alimentos sólidos. Um por um, eles estão apresentando sabores diferentes para ver do que ele gosta e não gosta. Ele adora doce de abóbora e batata, mas não gosta tanto de feijão verde ou banana. No dia em que eles abriram o pote e lhe apresentaram a “carne”, ele fez uma cara de nojo e cuspiu. Eles riram e minha mãe disse: “Ah, ele odeia carne! Melissa vai ser tão feliz”. Quando a minha mãe me contou a história, eu me sentia triste e disse: “Nenhum bebê quer comer vaca reconstituída em um pratinho?” Não é exatamente o que é? Por que queremos continuar esta prática, bárbara, embora cultural, das crianças, em que elas são forçadas a comer animais mortos? Na defesa do meu irmão e cunhada, o bebê não gosta de bananas… então o meu ponto não é sobre o que os bebês “naturalmente” preferem. Eu não estou negando que, depois de algum tempo, o sabor da carne do animal cozida não se torne um hábito de tal forma que se torna “uma segunda natureza”. Admito que eu, também, infelizmente, comia animais mortos cozidos e ingeria secreções (que eu bebia e gostava, especialmente quando esta era reforçada pelo açúcar e chocolate), até que um dia, quando eu fiz a conexão surpreendente, já não podia fingir ignorância.
Agora, o simples pensamento da ideia de comer um animal morto é revoltante. Eu ouvi os argumentos sobre a nossa evolução, como comer animais mortos ajudou nosso cérebro a desenvolver-se, nos ajudou a sobreviver em condições duras, e nos ajudou a prosperar como espécie. Eu não estou debatendo o que é “natural” ou “antinatural”. O que estou propondo é nós realmente considerarmos a velha questão: “O que há num nome?”. E começarmos a criar uma nova e mais direta maneira aberta para se comunicar, chamando alguma coisa do que ela realmente é, de modo que possamos nos tornar responsáveis por nossas ações e para as consequências que delas resultem. Nós começaremos a perceber que ter esse animal num prato, infelizmente, significa que, para chegar lá, ele foi criado e teve uma vida de sofrimento, ou, por estar no prato, ele foi sacrificado após ter sido uma criatura viva, respirando até o momento em que foi morto e convertido em um pedaço de carne, que deve passar por uma série de processos para que seja palatável e digestível. Minha esperança é que nos tornemos mais conscientes de nossas ações, e isso vai resultar em uma mudança na consciência. Meu objetivo é que um dia a definição de “alimento” só se refira a frutas, legumes, grãos e nozes, e não aos animais nem partes deles. Eu realmente acredito que este é um primeiro passo na “redefinição” não só das palavras, mas do mundo que desejamos.

Soluções Vegetarianas
por Melissa Martin

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