julho 15, 2010

Peles chinesas, choque elétrico no ânus e a letargia das boas intenções

por Marcio de Almeida Bueno

pele

Mas se você realmente está disposto a fazer alguma coisa, nao vai ser apenas um clique no botão ‘encaminhar’ de seu Outlook que vai promover alterações na realidade. Nas cataratas de emails que recebemos diariamente, é difícil selecionar o que é válido, e dentro disso o que é pertinente, urgente, sério, não-picareta e, especialmente, não-comodista. Acrescentar seu nome em uma lista escrita com letras de cores e tipos diferentes, para então enviar a alguém no exterior quando o número de subscreventes chegar a 500, é fácil demais para resolver problemas tão difíceis.

Nem todos têm estômago para assistir ao famoso vídeo das fazendas de peles na China, e os que tiveram peito para ver aquelas cenas de tortura explícita certamente se revoltaram com a condição humana. Mas daí fazer dessa revolta um mero encaminhar de mensagens é algo muito rápido e imediatista, com alcance discutível – como ligar 0800 para acabar com a fome no mundo.
Em havendo a vontade que parte de dentro e nos empurra em direção a ideais – e aí não me refiro a ouros de tolo como emprego invejável, carro do ano e esposa com chapinha no cabelo – esse combustível não pode ser tão fugaz a ponto de não tirar a pessoa da cadeira. Quem se choca com a indústria das peles não pode passar procuração para quem outros resolvam, outros decidam, outros ‘façam alguma coisa’.
É uma realidade chocante, que ainda conta com uma aura de glamour graças a estrelas de cinema e celebridades que insistem em fazer da beleza animal um ato de violência para fins de moda. Embelezar-se com a pele de outro, tirada à força – o mundo está mudando, e ainda tem gente com o cérebro morando em cavernas.
Diversos grupos internacionais, e alguns aqui no Brasil, têm militância contra o mercado das peles, e o que mais falta é gente interessada, com boa vontade e culhão, para se movimentar nessa linah de frente. Seja escrevendo um texto, distribuindo panfletos, participando de protestos, escrevendo uma carta a celebridades – ou aos patrocinadores dela, organizando uma palestra, distribuindo cópias de vídeos das filmagens, declarando seu boicote com palavras abertas.
Mas isso requer uma mudança de atitude, não deixar que aquele incômodo moral seja empilhado junto a tantos outros que a sociedade nos apresenta, já com um 0800 ou petition online para nos fazer sentir úteis e ‘fazendo alguma coisa’. Cada um tem as ferramentas, conforme sua qualificação profissional, suas habilidades e talentos, para ajudar a frear a enorme roda que patrola os animais fofos e peludos tão cobiçados por quem reza pelo evangelho do lucro.
Há muitos parafusos a serem apertados no mundo, e o olhar de um animal engaiolado, esperando a redenção final – um choque elétrico no ânus ou na vagina, para não estragar a matéria-prima – diz muita coisa, basta querer ler.

Sem comentários: