junho 29, 2010

Três tambores: exploração animal por trás da “mansidão” e da “fraternidade”


Um artigo meu escrito recentemente, chamado “A crueldade dos “três tambores” do rodeio”, causou revolta entre os praticantes do dito “esporte”. Os comentários do Arauto da Consciência e, ainda em menor quantidade, da ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais foram bombardeados por competidores e competidoras revoltados por eu ter acusado sua modalidade de cruel e generalizado os maus tratos que ocorrem no manejo de instrumentos como espora e açoites. Assim sendo, resolvi escrever um novo texto para elucidar melhor por que o três tambores tem a mesma oposição minha e dos defensores do abolicionismo animal que rodeios e vaquejadas.

Me disseram que os três tambores proporcionam uma comunhão afetiva entre cavaleiro e cavalo, sendo o primeiro não senhor do último, mas quase um “irmão”. Me falaram também de engajamentos filantrópicos com os lucros do “esporte” e da venda (sic) dos animais, da presença de conselhos de ética, veterinários e outras entidades que assegurariam um tratamento “digno” aos bichos. Fui acusado de escrever sem conhecer a realidade, de emitir um opinião leiga e, logo, irresponsável.
Reconheço que alguns comentários eu realmente tive alguma dificuldade de responder, e percebi que o motivo maior foi ter chegado ao limite da crítica relacionada a bem-estar animal – muito embora o artigo tenha falado, em um parágrafo, do caráter de exploração animal da competição. Foi falho ter exposto mais a crítica pró-bem-estar, facilmente questionável por quem pratica o dito “esporte”, do que a abolicionista, e isso induziu a uma equiparação indevida da modalidade ao rodeio e à vaquejada, pseudoesportes que por sua vez consistem na crueldade quase explícita.
O três tambores, por ser muito mais próximo do hipismo do que do rodeio, conforme ficou expresso nos diversos comentários e também é visível nos mais diversos vídeos, é de fato um “esporte” com animais no qual a exploração animal é bem menos óbvia do que a tão largamente criticada montaria de touros, por ter muito menos demonstrações explícitas de maus tratos por violência física. Nele não há peões ou vaqueiros sedentos de vencer o “adversário” animal, mas cavaleiros que afirmam competir em irmandade com os cavalos.
Mas isso não quer dizer que eu vim me retratar por completo do artigo passado e dizer que passei a ver o três tambores com bons olhos. Mas sim esclarecer melhor por que, mesmo com esse panorama alegado de bem-estar e fraternidade cavaleiro-cavalo, continuo mostrando que esse tipo de competição não se inclui no que o abolicionismo animal pode considerar ético e aceitável e reivindicando mais ação de entidades de direitos animais contra o uso de bichos para entretenimento seja lá de qual tipo for.
Não é obvio como no rodeio, mas há um sistema de exploração animal desde a arena de corrida até a procriação dos cavalos.
Em primeiro lugar, os vários adereços de controle e incitação usados no cavalo durante a competição deixam visível: o animal é tratado como máquina de velocidade, controlável pelo cavaleiro. Diversos adereços, como o cabresto, as rédeas e os freios, visam manipular para onde e quão rápido o bicho deve correr. Sem falar nos outrora citados açoite (usado em eventos como esse: http://www.youtube.com/watch?v=UCd72VRuGmw) e espora, cujos usos, mesmo não sendo acessórios cortantes nem causando ferimentos visíveis ou dores fortes, são uma agressão ao animal.
Hoje em dia não se pensaria em usar equipamento de controle ou açoites para controlar atletas humanos. Seria visto como uma violência tanto física quanto moral – “que humilhante é tratar seres humanos como carro de corrida”, pensariam. Mas são usados em cavalos, na dita inofensiva prova dos três tambores, numa demonstração da visão de que, por mais “irmão” que o cavalo seja do cavaleiro, ele nunca terá o mesmo estatuto moral que o ser humano, de ser portador do direito à dignidade e ao consequente não-tratamento como coisa e propriedade.
Não questiono mais se isso é cruel por causar violência explícita ou dor assim como os rodeios e vaquejadas, mas sim se é ético competir com animais controlando-os como objetos, como carros, algo que não se admitiria fazer com pessoas.
E pergunto: se a relação entre cavaleiros e cavalos é tão fraternal, por que não se dispensa o uso desses equipamentos nas provas oficiais, usando apenas sela e estribo para manter o cavaleiro montado em segurança, já que o cavalo entenderia inteligentemente para onde e quão rápido o “irmão” humano quer que ele corra?
Corroborando o argumento de que os animais supostos “irmãos” dos cavaleiros são de fato tratados como propriedade humana, está o fato de que existe um comércio de cavalos usados nessas competições. Não que o competidor venda o seu “irmão” algum dia, mas muito provavelmente – para eu não dizer que isso seria generalizado – este será comprado no início de sua “vida útil”, para uma vida de competições velozes. Tal como um carro zero de corrida.
A ética dos direitos animais repudia qualquer coisificação, mercantilização e proprietarização dos animais, da mesma forma e pelos mesmos motivos que a ética convencional que vigora hoje repudia o tratamento de homens e mulheres como coisas, mercadorias e propriedade de outrem. Fatalmente isso implica que “esportes” que usam animais, das mais sangrentas touradas até as mais amistosas provas de três tambores, serão alvo de objeção ética.
Também há a questão: o que é preferível e ideal para o animal, viver em liberdade na natureza – ou em santuários de refúgio, para animais cuja espécie foi há milênios apartada do seu vínculo ao equilíbrio ecológico de seu ecossistema de origem –, ou ser obrigado a uma vida de competições que ele não escolheu trilhar?
Afirmam que o cavalo, sendo inteligente, se comporta demonstrando que gosta de correr com aquele que se diz seu “dono”. Talvez seja válido dizer que o cavalo gosta de ser montado por seu cavaleiro na fazenda, sem acessórios de controle, caso haja uma relação afetiva tal como um cão com seu responsável e carinhoso tutor. Mas é questionável se o cavalo gosta – em outras palavras, sente-se bem – de ter seu corpo controlado e artificialmente induzido à corrida – e, em muitos casos, açoitado e esporado – numa competição em que está exposto a intensos barulhos e iluminação, em situação estressante, numerosas vezes num ano. Seria isso realmente preferível ao animal, mais do que viver livre num refúgio, sem obrigações vinculadas a interesses que não dizem respeito a suas necessidades e vontades?
Por fim, a questão do uso do animal por interesse humano. Qualquer “esporte” que use bichos para entretenimento, por mais que se diga que o animal “gosta” de competir, é uma forma de exploração animal. A ética tradicional de hoje condena o uso de seres humanos como propriedade a serviço dos interesses de outrem, o que inclui usar para fins de entretenimento pessoas que não escolheram expor-se (como no caso dos freak shows do século 19). O abolicionismo animal, por sua vez, estende essa condenação aos animais não-humanos.
Faz-se as perguntas, complementando o questionamento feito mais acima: o animal escolhe praticar um “esporte” que visa o entretenimento humano? Ele afirma mesmo, à sua maneira, que gosta de correr numa arena barulhenta e cheia de luz, sob o controle de diversos instrumentos, e está afim de vivenciar tal situação muitas vezes ao longo de sua vida até sua aposentadoria? Ele realmente pensa que isso lhe faz bem?
E há o detalhe de o cavalo ter sido dado à luz justamente para ser um animal de competições, tanto que ele, como uma “boa” mercadoria, é vendido em sua maturidade física ao cavaleiro disposto a pagar por sua compra, por ser um animal “muito bom para competições de três tambores”.
Ou seja, nasce para servir ao ser humano, para satisfazer os interesses do vendedor de cavalos, do próprio cavaleiro, dos organizadores de competições, dos proprietários de arenas e do público que prestigia o “esporte” para sua diversão –, como toda espécie submetida à exploração. Mesmo que o cavaleiro diga que o bicho é praticamente irmão seu e “gosta” de competir, isso não anula o fato de que ele só está ali – ou pior, só existe – porque pessoas se interessaram em seu nascimento e amadurecimento e dele se beneficiam cultural e economicamente.
Saio assim da questão do mero bem-estar – e até me retrato por ter generalizado a violência física que nem todos os cavaleiros promovem contra os cavalos –, mas continuo denunciando como “esportes” como o três tambores são sim formas de exploração animal que lançam mão da objetificação, mercantilização e reprodução interesseira de bichos, fato que se esconde na relação “fraternal” entre competidores e animais e na ausência de agressões explícitas contra estes últimos.
Se substituíssem cavalos por humanos e mantivessem na íntegra todo o restante do sistema, passaria a ser um pseudoesporte abominável aos olhos das pessoas e censurável pelas leis de direitos humanos. Mas, como são animais não-humanos, há toda uma aprovação moral por parte da maioria da sociedade. Assim sendo, continuo questionando eticamente o três tambores.
E aproveito para esclarecer que o três tambores ainda não se tornou alvo de críticas massivas das entidades de defesa animal porque infelizmente uma enorme parte das mesmas são bem-estaristas, e preferem manter-se em cima do muro porque não há tantos maus tratos físicos assim, não há uma crueldade física intrínseca ao tal “esporte” a qual as permita clamar que “três tambores deve ser proibido por lei porque é crueldade contra animais”. Essa modalidade só passará a ser alvo de críticas e repúdios quando o abolicionismo animal no Brasil se fortalecer, porque seu problema é muito mais de ética e exploração do que propriamente de violência física explícita.
Fonte: Vista-se

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