maio 31, 2010

A curiosa história da nossa comida


Publicado em Jornal do Povo - edição de 22/05/2010
(Cachoeira do Sul - Rio Grande do Sul)










Há seis milhões de anos, nossos ancestrais curtiam comer umas raízes, umas frutinhas, umas folhas. Esses hominídeos conseguiam tirar todos os nutrientes de que precisavam da natureza sem precisar matar. O problema é que havia uns bichos bem maiores do que nós naquela época, e na dieta deles, nós éramos o prato principal. Depois de um tempo, quando já éramos um grupinho maior, não dava para ficar andando pra lá e pra cá toda hora atrás de frutas. Afinal, o mundo era bastante perigoso.



Adaptação. Este é o segredo da sobrevivência no mundo. O mundo muda e a espécie que não se adapta é extinta invariavelmente. Não existe progresso ou grau de competência. O fato é que se a espécie existe é porque ela está adaptada. Quando ela perde essa capacidade, babau! Essa mudança de ambiente pode acontecer quando, por exemplo, um meteoro gigante cai na terra e levanta poeira ou quando uma espécie resolve usar suas penas para enfeitar chapéus ou ainda quando o seu alimento fica escasso.

O ser humano tem uma capacidade de adaptação tremenda. Não depende exclusivamente do acaso das mutações e da seleção natural de genes. Se precisamos de asas, nós mesmos as construímos. Se precisa de velocidade, não espera que seus descendentes desenvolvam pernas mais velozes; em vez disso, criamos veículos. Naquele tempo remoto, usamos nosso cérebro para aprender a caçar. Na carne dos animais, já encontrávamos uma série de nutrientes e proteínas concentradas. Nosso organismo, entretanto, não está preparado naturalmente para a digestão desse tipo de alimento (basta olhar nosso estômago, nossa arcada dentária, nosso intestino).



Mas a gente era um macaco pelado bem inteligente. Logo, logo a gente domesticou o fogo. Assando, queimando bem, ficava mais fácil de digerir. Mas, amiguinhos, de repente a gente entrou numa fria. Ou melhor: numa era glacial. A vegetação ficou coberta de neve e as baixas temperaturas teriam acabado com a humanidade se ela, mais uma vez, não usasse a inteligência para conseguir alimentos e peles para barracas e roupas. Acredito que a ponta de lança de pedra polida foi a maior invenção da humanidade. Se ela não houvesse sido criada, teríamos fatalmente deixado de existir.

Mas o sol voltou a brilhar. A era do gelo chegou ao fim. A terra voltou a dar seus frutos em abundância. Sim! Comida de verdade! Não precisávamos mais da degeneração de comer carne de outras espécies. Não precisaríamos nos culpar por termos comido cadáveres nos tempos da neve, afinal, era questão de sobrevivência. Mas agora não! Boa parte de nossos predadores havia deixado de existir e nós descobrimos como cultivar nossas próprias verduras e frutas.

Era sem dúvida um mundo mais saudável, mais bonito, mais gostoso, mais fácil de se viver. Estávamos em casa. Sério. Há duas experiências a se fazer para testar a teoria de que a gente era mais feliz nos campos férteis:

Primeira delas: tranque uma criança numa sala com uma maçã e um coelhinho. Observe se a criança vai comer a maçã e brincar com o coelho ou se ela vai caçar, matar e comer o coelho e depois brincar com a maçã.

Segunda: vá a um matadouro de bois. Sinta o cheiro, escute o barulho, olhe as cores. Depois vá a um pomar ou a uma horta e faça o mesmo processo sensorial: sentir o perfume, ouvir o som ambiente, contemplar a beleza. Em qual dos dois ambientes seu coração e seu corpo se sentiram melhor?

Naquele mundo pós-Era Glacial e pós-Revolução Agrícola, cara, dava pra gente ter construído uma História da Humanidade bem feliz e bonita. Tinha água, tinha terra fértil, tinha ar fresco. Não tinha tigre-dente-de-sabre querendo comer a gente como no passado, nem superbactérias querendo comer a gente como hoje. E além de tudo, a gente era o bicho mais esperto do planeta, capaz de criar coisas novas, fazer arte. Como a gente, cultivando a terra, estava na mais perfeita adaptação ao meio, não precisávamos mais nos preocupar com traçar estratégias para pegar mamutes. Nossa inteligência estava livre, com tempo para se divertir ou tentar responder certas perguntas como “quem sou?”, “de onde vim?”, “para onde vou?”. Enfim, o tipo de pergunta que você só pode se dar ao luxo de fazer depois de respondida a questão: “O que vou comer amanhã?” 









Publicado no Jornal do Povo  - edição de 29/05/2010
(Cachoeira do Sul - Rio Grande do Sul) 





Semana passada começamos a refletir sobre a história da relação da espécie humana com os ecossistemas dos quais fazemos e fizemos parte, com foco sobre a maneira como extraímos nosso alimento da natureza. Mesmo com a estrutura física de herbívoro (formato da arcada dentária, intestino longo, enzimas para digerir alimentos de origem vegetal), nossos ancestrais se submeteram a comer carne por uma única razão: sobrevivência.

Os primeiros hominídeos a experimentarem carne foram os Homo ergaster, desaparecidos há 250 mil anos. Eles comiam frutas, ovos e folhas. Mas em períodos de fome, começaram a comer carniça, restos das presas de grandes felinos.

Quando a comida escasseava ou ficava difícil vagar por aí por causa dos nossos predadores, a maneira de conseguir certos nutrientes era comer carniça, mesmo que isso fizesse mal em outros aspectos. Em condições extremas, as espécies humanas se mostraram capazes de tudo para tentar sobreviver. Em situações mais extremas ainda, até canibalismo cometeram.

Depois desenvolvemos técnicas de caça e domesticamos o fogo. Uma vez que a carne não é um alimento naturalmente feito para o homem, assá-la facilita um pouco a digestão. Matar animais foi fundamental para que os Homo sapiens (a nossa raça de homem) sobrevivessem a um período glacial, já que os animais abatidos forneciam pele e alimento.

Mas então o tempo do gelo acabou. O homem aprendeu a cultivar o solo, descobrindo que não precisava mais comer cadáver nem ter que sair procurando frutas por aí. Somos mesmo muito espertos e conseguimos descobrir mais ou menos como a vida funcionava e começamos a plantar. Não dava para ser um final feliz? Nossa espécie descobrir que a Terra dá em abundância o que a gente precisa (bastando adicionar água) não parece ser uma das nossas descobertas mais importantes? Tipo... O fim, para nós, do principal problema enfrentado pelos seres vivos: buscar alimento.

Mas alguns povos não tinham terras férteis. Tinham que andar. A melhor maneira de carregar alimento, pelo deserto por exemplo, é que esse alimento vá andando junto com a caravana. O pastoreio é uma boa solução.

Mas sabe que já descobriram como tornar a maior parte das terras estéreis em solo fértil? E tem lugar que não tem isso ainda por falta de vontade política, mas os egípcios antigos e civilizações pré-colombianas já descobriram há um tempão como irrigar a terra. Aos poucos, quase todos os povos da Terra se sedentarizaram.

Atrás de pimenta, descobriram terra

Mas vejam só os portugueses. Parece piada, mas eles continuaram a comer animais mortos mesmo tendo desenvolvido tanta tecnologia. Comer carne (principalmente quando ainda não havia geladeira e a coisa estragava e fedia mais rápido) é uma forçação de barra tão grande contra o organismo que os caras fizeram o maior fuá pra conseguir trazer especiarias (pimentas e outros temperos) das Índias para conseguir engolir aquilo. O bom disso é que (sem querer?) descobriram, em 1500, a terra que hoje chamamos de Brasil. Uma terra grande onde “se plantando tudo dá”, como escreveria ao rei o famoso Pero Vaz de Caminha (que morreu antes de voltar de sua viagem atrás de pimenta).

Aquela terra dava para plantar comida pra caramba para acabar com a fome do mundo, que poderia viver tranquilo, em harmonia, de barriga cheia, buscando progresso de maneira racional e justa. Mas nããão! Escravizaram pessoas, destruíram a vegetação natural e esgotaram o solo.

Encurtando a história: hoje um quarto do território nacional é usado na pecuária. Já acabou com os Pampas, o Cerrado, o Pantanal e agora invade a Amazônia, onde hoje tem mais boi que gente. Muito espaço usado para produzir pouco alimento para poucos. Além disso, no ano passado, o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe) divulgou estudo que aponta que metade das emissões de gases de efeito estufa no Brasil deve-se à pecuária. Além disso, em 2007, a FAO – órgão das Nações Unidas para a agricultura e a alimentação mundial – alertou que no planeta cerca de 35% a 40% das emissões de metano vêm dos puns das vacas. O metano é 21 vezes mais prejudicial que o gás carbônico (CO2).

Além de a produção de carne gastar 14,7 vezes mais energia do que a produção de vegetais, ainda tem o problema da água. Para produzir um único quilo de carne são gastos 15.500 litros de água (o que a vaca bebe mais o quanto de água é gasto para produzir seu alimento: pasto e cereais). Enquanto que para produzir um quilo de soja gasta-se 1,8 mil litros; um quilo de arroz, 2 mil litros. Sem falar na poluição que a quantidade de fezes leva para os lençóis freáticos. Aí a água já sai da mina com coliformes fecais.

Diante disso, parece que vivemos um momento decisivo na história da humanidade. Se um dia tivemos que começar a comer carne para sobreviver, hoje é hora de deixarmos de comer ou reduzir radicalmente o consumo semanal. A Organização Mundial da Saúde (OMS) sugere a ingestão MÁXIMA diária de 42,85 gramas de carne vermelha por pessoa, isto é, 300 gramas por semana, que é o que o organismo aguenta “malemá”. Enquanto isso, o IBGE alerta que em média o brasileiro come mais de 100 gramas/dia. O resto vira pelota de gordura no sangue, radicais livres e um montão de fezes. Resumindo: todo esse impacto ambiental para, no fim das contas, produzir cocô e aumentar o risco de câncer e doenças vasculares.

Bom, melhor nem falar dos hormônios e de outras substâncias químicas que injetam no gado e a gente absorve ao comer...


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