março 07, 2010

A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera



O livro "A insustentável leveza do ser", do consagrado autor Milan Kundera é um clássico da literatura mundial. Além de sua linguagem singular, que mescla romance com pensamentos, há uma profunda reflexão sobre como os homens agem com os animais, a qual segue abaixo:

"No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas.


Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: “Tu reinarás sobre as criaturas de todas as outras estrelas”, para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem atrelado à carroça de um marciano – eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via-láctea – talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria então (tarde demais), desculpas à vaca.
(...)
A humanidade é parasita da vaca, assim como a tênia é parasita do homem: agarrou-se à sua teta como uma sanguessuga. O homem é o parasita da vaca, essa é, sem dúvida, a definição que um não-homem poderia dar ao homem em sua zoologia.
A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa a nosso olhar), são as relações com aqueles que estão à nosso mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras."
Trecho completo:


No livro A Insustentável Leveza do Ser o premiado autor tcheco, Milan Kundera, faz uma interessante reflexão sobre a
relação entre os animais humanos e não-humanos. 

No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É
claro, o Gênese foi escrito por um homem e não por um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o
homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder
que usurpou da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a única coisa sobre a qual a
humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas. 

Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria que um terceiro
entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de outro planeta a quem Deus tivesse dito: “Tu reinarás sobre as
criaturas de todas as outras estrelas”, para que toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida. O homem
atrelado à carroça de um marciano – eventualmente grelhado no espeto por um habitante da Via-láctea –
talvez se lembrasse da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu prato. Pediria então (tarde demais)
desculpas à vaca. 

Tereza acompanha seu rebanho de novilhas, toca-as para a frente, mas há sempre uma a ser repreendida, pois as
vacas jovens têm bom humor e se afastam do caminho para passear no campo. Karenin está com ela. Já faz dois
anos que a acompanha no pasto. Em geral, se diverte muito sendo severa com as novilhas, latindo e ralhando com elas
(seu Deus encarregou-a de reinar sobre as vacas e disso ela se orgulha). Mas hoje está andando com muita
dificuldade, saltando sobre três patas; na quarta tem uma ferida que sangra. A cada dois minutos Tereza se curva e lhe
acaricia o pêlo. Quinze dias depois da operação torna-se evidente que o câncer não foi debelado e que Karenin irá de
mal a pior. 


No caminho encontram uma vizinha que está indo para o estábulo, calçada com botas de borracha. A vizinha pára: - O
que aconteceu com o seu cachorro? Parece que ele está mancando! Tereza responde: - Está com câncer. Está
condenado – e sente a garganta apertar, quase não pode falar. A vizinha percebe as lágrimas de Tereza e fica
indignada: - Pelo amor de Deus, não vai chorar por causa de um cachorro! – Não disse isso por maldade, é uma
boa mulher, foi mais para consolar Tereza. Tereza sabe disso, mora no lugar há tempo suficiente para compreender
que se os camponeses gostassem de seus coelhos como ela gosta de Karenin não poderiam matá-los e acabariam
morrendo de fome no meio dos bichos. No entanto a observação da vizinha lhe parece hostil. – Sei –
responde sem protestar, mas se apressa em dar-lhe as costas e continuar seu caminho. Sente-se sozinha em seu amor
pelo cão. Pensa com um sorriso triste que deve escondê-lo mais secretamente do que escondesse uma infidelidade. O
amor que se tem por um cachorro escandaliza. 


Segue seu caminho com as novilhas que se esfregam umas nas outras, dizendo a si mesma que são bichos muito
simpáticos. Pacíficos, sem malícia, às vezes de uma alegria pueril: parecem mulheres gordas, cinqüentonas, que fingissem
ter catorze anos. Não existe nada mais comovente do que vacas brincando. Tereza as olha com ternura, e diz para si
mesma (é uma idéia que lhe ocorre sem cessar há dois anos) que a humanidade é parasita da vaca, assim como a
tênia é parasita do homem: agarrou-se à sua teta como uma sanguessuga. O homem é o parasita da vaca, essa é,
sem dúvida, a definição que um não-homem poderia dar ao homem em sua zoologia. 


Pode-se tomar essa definição como um simples gracejo e sorrir com indulgência. Tereza porém a leva a sério, e fica
numa posição arriscada: essas idéias são perigosas e a distanciam da humanidade. Já no Gênese, Deus encarregou o
homem de reinar sobre os animais, mas podemos explicar isso dizendo que ele apenas emprestou ao homem esse
poder. O homem não era o proprietário mas apenas o gerente do planeta, e um dia teria de prestar contas de sua
gestão. Descartes deu o passo decisivo: fez do homem “maître et propriétarie de la nature”. Que seja
precisamente ele quem nega de maneira categórica que os animais tenham alma, eis aí uma enorme coincidência. O
homem é senhor e proprietário, enquanto o animal, diz Descartes, não passa de um autômato, uma máquina animada,
uma machina animata. Quando um animal geme, não é uma queixa, é apenas o ranger de um mecanismo que funciona
mal. Quando a roda de uma charrete range, isso não quer dizer que a charrete sofra, mas apenas que ela não está
lubrificada. Devemos interpretar da mesma maneira os gemidos dos animais, e é inútil lamentar o destino de um
cachorro que é dissecado vivo num laboratório. 

As novilhas pastam no prado, Tereza está sentada sobre um tronco de árvore e Karenin estendida a seus pés, a
cabeça recostada em seus joelhos. Tereza lembra-se de uma notícia de duas linhas que lera no jornal há uns dez anos:
dizia que numa cidade da Rússia todos os cachorros haviam sido mortos. Essa notícia discreta e aparentemente sem
importância tinha-lhe feito sentir pela primeira vez o horror que emanava desse imenso vizinho. 

Era uma antecipação de tudo que viria depois: nos dois primeiros anos que se seguiram à invasão russa, não se podia
ainda falar em terror. Já que toda nação desaprovava o regime de ocupação, era preciso que os russos encontrassem
entre os tchecos homens novos e os levassem ao poder. Mas onde encontrá-los, uma vez que a fé no comunismo e o
amor pela Rússia eram coisa morta? Foram procurar entre aqueles que alimentavam intimamente o desejo de se
vingar da vida. Era preciso soldar, alimentar, manter alerta a agressividade deles. Era preciso primeiro treiná-los contra
um alvo provisório. Esse alvo foram os animais. 

Os jornais começaram então a publicar uma série de artigos e a organizar campanhas sob a forma de cartas de leitores.
Exigia-se, por exemplo, o extermínio dos pombos numa cidade. Os pombos foram exterminados. Mas a campanha
visava sobretudo aos cachorros. As pessoas estavam ainda traumatizadas com a catástrofe da ocupação, mas os
jornais, o rádio, a televisão, só falavam nos cachorros que sujavam as calçadas e os jardins públicos, ameaçando a
saúde das crianças, cachorros que não serviam para nada e ainda tinham que ser alimentados. Fabricou-se uma
verdadeira psicose, e Tereza teve medo de que a população excitada se voltasse contra Karenin. Um ano mais tarde, o
ódio acumulado (ensaiado primeiro sobre os animais), foi apontado para o seu verdadeiro alvo: o homem. As demissões,
as prisões, os processos, começaram. Os animais puderam enfim respirar. 

Tereza acaricia a cabeça de Karenin que descansa tranqüilamente em seus joelhos. Faz mais ou menos esse raciocínio:
não existe nenhum mérito em sermos corretos com nossos semelhantes. Tereza é forçada a ser correta com os outros
moradores da aldeia, ou não poderia viver ali; e, mesmo com Tomas, é obrigada a se portar como mulher amorosa, pois
precisa dele. Nunca se poderá determinar com certeza total em que medida nosso relacionamento com o outro é o
resultado de nossos sentimento, de nosso amor, de nosso não-amor, de nossa complacência, ou de nosso ódio, e em
que medida ele é determinado de saída pelas relações de força entre os indivíduos. 

A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que
não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que
escapa a nosso olhar), são as relações com aqueles que estão à nosso mercê: os animais. É aí que se produz o maior
desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras. 

Uma novilha se aproxima de Tereza, pára, e olha para ela longamente com grandes olhos castanhos. Tereza a
conhece. Chama-se Marketa. Gostaria de ter dado um nome a cada uma das novilhas mas não pode, são muitas. Há
uns trinta anos certamente teria sido assim, todas as vacas do lugar teriam um nome (se o nome é o sinal da alma,
posso dizer que elas tinham uma, apesar de desagradar a Descartes). Mas a aldeia tornou-se uma grande usina
cooperativa e as vacas passam a vida em dois metros quadrados de estábulo. 

Tenho sempre diante dos olhos Tereza sentada sobre um tronco, acariciando a cabeça de Karenin, e pensando no
desvio da humanidade. Ao mesmo tempo, surge para mim uma outra imagem: Nietzsche está saindo de um hotel em
Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo,
abraça-lhe o pescoço, e sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. 

Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi
precisamente nesse momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao
gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão por Descartes. Sua loucura (portanto seu divórcio da
humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. 

É este Nietzsche que amo, da mesma forma que amo Tereza, acariciando em seus joelhos a cabeça de um cachorro
mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho no qual a humanidade, “senhora e
proprietária da natureza”, prossegue sua marcha para a frente. 

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