março 18, 2010

“Ai meu Deus, esses veganos…”

No corrente debate entre aqueles que promovem a abordagem abolicionista e aqueles que promovem a abordagem bem-estarista, alguns bem-estaristas dizem que apóiam o veganismo e que portanto, na realidade, a diferença entre as duas abordagens é pequena, em matéria de comer e usar produtos de origem animal.

No caso de bem-estaristas apoiarem o veganismo, é importante que se entenda que a posição abolicionista quanto ao veganismo é muito diferente da posição bem-estarista quanto ao veganismo.

O abolicionista vê o veganismo como a base moral inegociável de um movimento que sustenta que devemos abolir todo uso de animais, por mais “humanitariamente” que possamos tratar os não-humanos. A posição abolicionista sustenta que os animais não-humanos têm valor inerente e que jamais devemos matá-los e comê-los, mesmo que eles tenham sido criados e mortos “humanitariamente”. Os abolicionistas consideram o veganismo um fim em si mesmo—uma expressão do princípio da abolição na vida do indivíduo.

Veganos abolicionistas não fazem campanhas por reformas bem-estaristas que tornam a exploração animal supostamente mais “humanitária”. É claro que é “melhor” infligir menos dano do que mais dano, mas nós não temos nenhuma justificativa moral para infligir qualquer dano aos não-humanos, para começo de conversa. É “melhor” não espancar uma vítima de estupro, mas isso não torna moralmente aceitável o estupro sem espancamento, nem torna uma “campanha pelo estupro humanitário” uma coisa que deveríamos fazer.

Os abolicionistas consideram o veganismo a mais importante forma de mudança incremental. Empregam seu tempo e seus recursos educando as outras pessoas sobre o veganismo e a necessidade de se parar completamente de usar animais, ao invés de tentarem convencê-las a comerem ovos de aves “livres de gaiolas de bateria” ou carnes de animais que tenham sido presos em cercados mais amplos.

No caso de bem-estaristas apoiarem alguma forma de veganismo (e muitos não apóiam), eles vêem o veganismo não como um fim em si mesmo, mas apenas como um meio de reduzir o sofrimento animal. Eles não enxergam o uso de animais como o principal problema; eles pensam que é admissível que os humanos matem e comam não-humanos, e que o problema principal é o modo como tratamos os animais. Os bem-estaristas que promovem o veganismo argumentam que, como é difícil conseguir comida de origem animal que tenha sido produzida de uma maneira moralmente aceitável, nós temos de ser veganos na maior parte do tempo, mas que é admissível sermos veganos “flexíveis” e consumirmos comidas não-veganas também. Como o foco dos bem-estaristas é o tratamento em vez do uso, eles fazem campanhas por coisas como ovos de aves “livres de gaiolas de bateria” ou alternativas às celas de gestação.

A maioria daqueles que endossam esse ponto de vista concordam com a posição do teórico utilitarista Peter Singer, que fornece um excelente exemplo de “veganismo” bem-estarista.

Singer não acha que o fato de usarmos animais não-humanos para propósitos humanos seja necessariamente um problema, porque ele não considera necessariamente imoral matarmos animais. Segundo Singer, os animais (com exceção dos grandes símios não-humanos e talvez outras poucas espécies) não são conscientes de si mesmos e não se importam realmente com o fato de os usarmos mas apenas com o modo como os usamos. Isso leva Singer a dizer que ser um “onívoro consciencioso” pode ser moralmente admissível se a gente tomar o cuidado de comer apenas animais que tenham sido criados e mortos de uma maneira “humanitária”.

Por exemplo, em uma entrevista de 2006 publicada pela revista The Vegan, Singer declara:

“Para evitar infligir sofrimento aos animais—fora os custos ambientais da produção animal intensiva— precisamos cortar drasticamente a quantidade de produtos animais que consumimos. Mas isso significa um mundo vegano? É uma solução, mas não necessariamente a única. Se é com o fato de infligir sofrimento que estamos preocupados, e não com o fato de matar, então eu também posso imaginar um mundo em que as pessoas consomem principalmente alimentos à base de plantas, mas de vez em quando se dão o luxo de comer ovos de aves criadas soltas, ou possivelmente até carnes de animais que viveram uma boa vida em condições naturais para suas espécies e depois foram mortos humanitariamente na fazenda” .

Em uma entrevista de maio de 2006 para Mother Jones, Singer declara:

“Há um lugarzinho para um pouco de indulgência em todas as nossas vidas. Conheço pessoas que são veganas em seus lares mas que, quando saem para comer num restaurante chique, permitem-se o luxo de não ser veganas naquela noite. Não vejo nada de realmente errado nisso”.

“Não como carne. Sou vegetariano desde 1971. Tornei-me vegano gradualmente. De um modo geral sou vegano, mas um vegano flexível. Não compro coisas não-veganas para mim, no supermercado. Mas, durante minhas viagens, ou nas casas dos outros, terei muito prazer em comer uma comida vegetariana, em vez de vegana”.

Em outubro de 2006, em uma entrevista na revista bem-estarista Satya, Singer declara:

“Quando estou fazendo compras para mim, a compra é vegana. Mas quando estou viajando e fica difícil conseguir comida vegana em alguns lugares, sou vegetariano. Não como ovos que não sejam de galinhas soltas, mas, se eles forem de galinhas soltas, eu como. Não peço um prato cheio de queijo, mas também não fico preocupado se, por exemplo, um prato indiano de vegetais ao curry tiver sido preparado com manteiga”.

Singer argumenta que há ocasiões em que nós temos a obrigação moral de não ser veganos:

“Acho que é mais importante tentar produzir uma mudança na direção certa do que ser pessoalmente puro. Então, quando você está comendo com alguém em um restaurante e você pede um prato vegano, mas esse prato vem com um pouquinho de queijo ralado ou coisa assim por cima… às vezes os veganos criam o maior caso e devolvem o prato, quer dizer, pode ser um desperdício de comida. E se você está na companhia de pessoas que não são veganas, ou sequer vegetarianas, eu acho que é provavelmente errado fazer isso. É melhor simplesmente comer, porque senão as pessoas vão dizer: ‘Ai meu deus, esses veganos…’”.

É claro que, no plano moral, não há como estabelecer qualquer diferença entre carnes, laticínios e ovos. Portanto, Singer estaria comprometido com a seguinte posição: se você está em um restaurante com pessoas que comem carne, e você pede uma refeição vegetariana, mas ela vem com pedaços de bacon por cima, ou vem com outros produtos feitos de carne, ou, ainda, se um anfitrião não-vegetariano lhe serve carne durante um jantar, você vai ter obrigação de comer a carne para impedir que as pessoas pensem: “Ai meu deus, esses vegetarianos…”.

Eu discuto detalhadamente a visão de Singer sobre a questão de matarmos animais em meu ensaio O “luxo” da morte.

Que Singer se concentre no tratamento dos animais, em vez de se concentrar no fato de matarmos os animais, leva à posição de que o veganismo é simplesmente um dentre os vários modos de reduzirmos o sofrimento, mas não é obrigatório porque não há nada de inerentemente errado em matarmos animais. De fato, Singer acredita que ser um vegano consistente é ser um “fanático”.

E muitos bem-estaristas se referem ao veganismo do mesmo modo que ele. Por exemplo, Paul Shapiro, o diretor da campanha da HSUS voltada para fazendas de criação intensiva, declara:

“A razão pela qual eu sou vegano é que eu vejo o veganismo como uma ferramenta para ajudar a reduzir o sofrimento animal. O Vegan Outreach tem escrito detalhadamente sobre isso, e eu concordo com eles. Eles dizem que a dieta vegana ‘não é um fim em si mesma’. Não é um dogma ou uma religião, nem uma lista de ingredientes proibidos ou leis imutáveis—é somente uma ferramenta para nos opormos à crueldade e reduzirmos o sofrimento”.

Em outras palavras, o veganismo é somente um outro modo, assim como as jaulas maiores e outras reformas bem-estaristas, de reduzir o sofrimento. É assim que Shapiro aparentemente justifica promover ovos de galinhas “livres de gaiolas de bateria” como se isso fosse uma coisa “socialmente responsável” e fazer campanhas por outras reformas bem-estaristas, além de trabalhar na coalizão que apóia o selo “humanitário” Certified Humane Raised and Handled.

Para os bem-estaristas, a questão básica é o tratamento dos animais, não o uso dos animais. Conforme declara Singer:

“É muito difícil ser um onívoro consciencioso e evitar todos os problemas éticos, mas se der para a gente ser realmente bem rigoroso quanto a comer apenas animais que viveram boas vidas, esta pode ser uma posição ética defensável”.

Em fevereiro de 2007, participei de um debate em um podcast com Erik Marcus, do Erik’s Diner. Marcus é um entusiasmado patrocinador de insignificantes reformas bem-estaristas, incluindo a dos ovos de galinhas “livres de gaiolas de bateria” .

Mas, conforme o debate deixou dolorosamente óbvio, Marcus exagera enlouquecidamente a proteção oferecida aos animais pela regulamentação bem-estarista, apesar de não ter a menor idéia dos fatos relevantes. Além disso, ele está completamente por fora de como as reformas do bem-estar estão tornando a exploração animal mais aceitável no plano social e fazendo aumentar o consumo de produtos animais, e de como essas reformas são do interesse econômico dos exploradores institucionais de não-humanos. Um ensaio do sociólogo britânico Dr. Roger Yates revela a estarrecedora ignorância de Marcus e seus assessores da HSUS quanto aos fundamentos da exploração institucional dos animais.

Marcus, como os outros “veganos” bem-estaristas, afirma que é aceitável comer produtos que não sejam veganos contanto que estes sejam “essencialmente veganos”, e ele promove, regularmente, produtos animais obtidos de forma supostamente mais “humanitária”.

Essa atitude casual e relaxada com relação ao veganismo é característica dos bem-estaristas. Em um artigo de dezembro de 2006 sobre Dan Mathews da PETA, Mathews e o repórter foram comer no McDonald’s e o repórter perguntou se podia pedir um hambúrguer com queijo. O artigo diz que Mathews respondeu: “‘Peça o que quiser’. . . ‘Cinqüenta por cento dos nossos membros são vegetarianos e os outros cinqüenta por cento acham que é uma boa idéia’”. Fora o fato de que Mathews come no McDonald’s, fala para o repórter pedir o que quiser e proclama, sem qualquer constrangimento aparente, que apenas metade dos afiliados da PETA é “vegetariana” (quanto menos vegana), Mathews comeu um produto—o “hambúrguer vegetariano”—que nem mesmo o McDonald’s diz que é vegetariano, dado que é preparado numa chapa junto com produtos à base de carnes e manipulado junto com produtos animais.

O abolicionista rejeita a posição bem-estarista quanto ao veganismo porque essa posição não apenas endossa explicitamente o especismo e a exploração, como também é contraproducente em termos de estratégia. Se você explicar a uma pessoa que não há qualquer justificativa moral para comermos qualquer produto de origem animal, pode ser que essa pessoa não desista de todos os produtos animais imediatamente, mas você terá declarado uma posição clara e consistente, e terá fornecido um objetivo claro ao qual se aspirar. Mas se você lhe disser que é moralmente aceitável fazer menos do que virar vegana, pode ficar certo de que ela provavelmente não vai ver qualquer necessidade de avançar. Quando você tem gente como Singer, o chamado “pai” do movimento, dizendo às pessoas que elas podem agir moralmente sendo “onívoras conscienciosas”, isto é exatamente o que muitas delas vão fazer.

Para concluir: há uma enorme diferença entre o veganismo do abolicionista e o “veganismo” do bem-estarista. O bem-estarista vê o veganismo como um meio de reduzir o sofrimento, mas não o vê como uma base moral.

Há uma enorme diferença entre a pessoa que assume a posição de que o sexismo é sempre errado e a pessoa que diz que devemos ser “flexíveis” com relação ao sexismo e nos permitir um pouquinho de sexismo, ou mesmo que temos a obrigação moral de ser sexistas em certas circunstâncias porque devemos evitar provocar reações do tipo: “Ai meu deus, essas feministas…”.

Gary L. Francione
© 2007 Gary L. Francione
© Tradução: Regina Rheda

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