janeiro 01, 2010

Reflexão "Dieta Vegana"

Resposta à reportagem “A moda do vegetarianismo – e seus riscos” publicada pela Revista Época


A reportagem “A moda do vegetarianismo – e seus riscos” publicada pela revista Época online em 28/11/2008, traz algumas afirmações que carecem de informação correta e outras que propõem meias soluções como se fossem soluções completas.

A reportagem afirma que o consumo de proteínas animais é fator de risco para a ocorrência de doenças cardiovasculares, apontando o seu conteúdo de colesterol como um dos responsáveis. Em seguida, a matéria apresenta a recomendação do médico nutrólogo para ingerir carnes vermelhas duas ou três vezes por semana, intercalando com carnes brancas.

Em primeiro lugar, algumas carnes brancas contêm mais colesterol do que as carnes vermelhas, podendo portanto serem piores para esse efeito. Além disso, se o vilão apontado é o consumo de “proteína animal”, o melhor resultado será obtido eliminando por completo o consumo desse produto e não o reduzindo de maneira conservadora.

Novamente, a reportagem cita uma afirmação do médico nutrólogo onde ele recomenda aos vegetarianos aspirantes para consumirem ovos e laticínios para que não fiquem “sem as proteínas animais presentes nas carnes”, estando implícito aqui que a proteína de origem animal seria essencial à nutrição humana, o que não é fato. Ademais, a recomendação para incluir ovos e laticínios na dieta vegetariana limita os benefícios para a saúde cardiovascular que poderiam ser obtidos com uma dieta vegana (vegetariana completa).

O erro mais grave, no entanto, está na afirmação de que a dieta vegana (vegetarianismo restrito), ou a “falta de proteínas animais”, seria contra-indicado para crianças e adolescentes com menos de 18 anos, sob o risco de prejudicar o crescimento e desenvolvimento da criança e causar alterações funcionais nos órgãos.

É fato que as carências nutricionais podem levar ao que foi descrito, mas não é fato que uma dieta vegetariana restrita seja uma dieta com carências nutricionais. Algumas associações dietéticas internacionais já se posicionaram sobre o tema da alimentação vegetariana infantil e não há restrição para a adoção de uma dieta vegana, desde que essa seja bem orientada e suplementada com a vitamina B12. Estudos científicos também corroboram o fato de que crianças e adolescentes podem adotar uma dieta vegana. Os poucos estudos que mostram resultados negativos no crescimento e desenvolvimento de crianças veganas são aqueles onde a população não faz uso de suplementação com a vitamina B12 ou onde prevalece um grau de desnutrição que atinge não apenas a população vegetariana, mas toda a população da região ou grupo estudado.

Em minha prática como nutricionista, dedico-me exclusivamente ao atendimento de pacientes vegetarianos, muitos deles crianças, adolescentes e inclusive gestantes. Seguindo o que é atestado por associações dietéticas de renome e por publicações científicas, os meus pacientes se mostram muito saudáveis, especialmente quando bem orientados.

Uma criança pode adotar uma dieta vegetariana ou vegana desde o nascimento, desde que haja o devido planejamento nutricional, o que é essencial em qualquer estilo alimentar, não sendo essa necessidade de planejamento exclusiva ao veganismo. Os nutrientes que merecem atenção em uma dieta vegana infantil são a vitamina B12 (encontrada em alimentos fortificados ou suplementos), o ômega-3 (encontrado no óleo de linhaça), a proteína (encontrada nas leguminosas e nas castanhas), o ferro (abundante nas frutas, vegetais verde-escuros, no melado-de-cana, nas castanhas e nas leguminosas) e o cálcio (encontrado nas mesmas fontes de ferro citadas).

Sugiro à reportagem da revista Época que escolha as suas fontes para compor as matérias, pois no caso da reportagem em questão faltou a informação tanto para a jornalista responsável quanto para o profissional consultado. Coloco-me à disposição para fornecer quaisquer informações adicionais a que possam se interessar.

Dr. George Guimarães
Nutricionista especializado em dietas vegetarianas
Nutriveg
E-mail

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Vegetarianismo é moda? Comentários sobre a reportagem da Época.

Em 28 de Novembro de 2008 a Revista Época publicou artigo intitulado “A moda do vegetarianismo e seus riscos”.

Não foi uma matéria apronfundada sobre o assunto, mas em poucos parágrafos o jornalista e o endocrinologista consultado cometeram uma série de equívocos.

A primeira injustiça foi comparar vegetarianismo com “moda”. O fato de estar em evidência não transforma um assunto necessariamente em moda (e o sentido do termo, aqui, é perjorativo, como uma mania passageira). Vegetarianismo é verdadeiramente uma escolha alimentar, podendo também ser um estilo de vida e uma escolha filosófica.
Infelizmente, no Brasil - em descompasso com o resto do mundo - vegetarianismo e veganismo são tratados como “dietas de emagrecimento” (e um vegetariano sem restrição calórica não emagrece) ou mera “moda” por nossos Conselhos Regionais de Nutrição ou Medicina (que se recusam a emitir pareceres sobre o assunto), quando na verdade derivam de anos e anos de tradição na história da humanidade (imemorável no Oriente, remontando a Pitágoras no Ocidente) e diversos estudos sobre o assunto.
Já o veganismo existe organizadamente desde 1944 (embora já existissem vegetarianos que recusassem ovos e leite na alimentação, apenas não eram destacados do grupo), sendo que o fundador da British Vegan Society, Donald Watson, morreu recentemente aos 95 anos, em ótimo estado físico e mental, após 65 anos de veganismo (e não se trata de um clube fechado com seguidores e muito menos hierarquia).
Se o assunto está cada vez mais em pauta, isso se deve ao esforço de seus adeptos em tirar das sombras o que antes era tido como uma escolha alimentar, pessoal e de foro íntimo. Fazemos essa escolha por uma série de razões e gostamos de discutí-las porque realmente acreditamos que nossas decisões influenciam no destino dos animais, do meio ambiente, da agricultura, do clima, da distribuição de alimentos, entre outros.


O segundo erro é, de fato, um conjunto:
  • a) a afirmação de que o veganismo não é adequado a crianças
  • b) que a falta de “proteína animal” poderia acarretar algum problema no desenvolvimento das mesmas.
  • c) que crianças veganas demandam um acompanhamento alimentar mais direto do que o acompanhamento de crianças em geral
  • d) que a suplementação de B12 é um problema (assunto polêmico ante evidências em contrário, mas cientificamente assume-se que é necessário nas dietas veganas)
  • e) uma incorreta afirmação de que a soja é o substituto por excelência da carne, e mesmo assim incompleta.


A ADA (Associação Americana de Dietética, em conjunto com Nutrólogos do Canadá) elaborou em 2003 documento afirmando que sem dúvida alguma que dietas veganas bem planejadas (como qualquer dieta equilibrada deveria ser) são adequadas a qualquer fase da vida, com qualquer nível de atividade física. Isso inclui toda a infância e adolescência, gravidez, lactação, velhice e também atletas de alta performance.

Tal documento também afirma que, ante as evidentes vantagens para a saúde humana, os profissionais de nutrição têm a responsabilidade de apoiar e encorajar todos os que manifestem o desejo em adotar esse tipo de dieta. Entre os benefícios (que constam no documento pormenorizadamente): a redução do índice de obesidade, menor incidência de doenças cardiovasculares, menor incidência de osteoporose, menor incidência de doenças renais, menor incidência de demência, artrite reumatóide, etc.

O contéudo desse relatório, em inglês, assim como seu complemento, podem ser consultados nos links abaixo:
www.eatright.org
www.dietitians.ca

Ainda, indico a leitura do livroAlimentação sem Carne do médico nutrólogo brasileiro Eric Slywitch e, sendo um profissional da área, verificação da vasta bibliografia que o acompanha. O livro fala com propriedade sobre macro e micro nutrientes na Dieta Vegetariana, ajudando no planejamento do cardápio e dando segurança a seus adeptos. Do mesmo autor, aliás, temos o texto publicado na Revista Diálogo Médico, falando especificamente sobre pediatria e vegetarianismo.

Por fim, em consulta ao USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, responsável pela elaboração da pirâmide alimentar contida em www.mypyramid.gov), encontramos diversas referências ao VRG (Vegetarian Ressource Group).

Trata-se de uma entidade sem fins lucrativos dedicada ao estudo nutricional do vegetarianismo e veganismo, reunindo e também produzindo material sobre o assunto. Recomendo fortemente as seguintes páginas (também em inglês): www.vrg.org/nutrition/ , www.vrg.org e www.vrg.org/family

Num mundo em que grávidas em geral tomam suplemento de ácido fólico, crianças em geral suplementam ferro e cálcio, farinhas são adicionadas de ferro, sal é adicionado de iodo, laticínios têm que ser enriquecidos com vitamina D, comida industrializada infantil é adicionada de vitaminas ao invés de se incentivar hábitos saudáveis e pessoas em geral tomam polivitamínicos porque não têm confiança na sua própria alimentação (muitas vezes sem indicação médica e até gerando graves desequilíbrios), a indicação de suplementação de vitamina B12 dentro de um cardápio vegano planejado não deveria ser visto jamais como um problema e sim como uma indicação direcionada dentro de uma dieta que como um todo traz muito mais vantagens (seja em termos de direitos animais, seja ambientais, seja pelos benefícios à saúde). Suplementação que pode ser feita anualmente, por injeção intramuscular, ou diariamente com a inclusão de alimentos enriquecidos (cereais matinais, por exemplo). Aliás, a origem de todo suplemento sintético de vitamina B12 é microbiana e não animal.

No mais, questiono fortemente a afirmada necessidade de “proteínas de origem animal”, já que as necessidades proteicas em qualquer idade se atingem com a adequação de calorias e um mínimo de variedade vegetal. Adotando-se o PDCAAs (Protein Digestibility Corrected Amino Acid score, índice atualmente recomendado pela FAO/OMS, inclusive em substituição ao antigo “valor biológico”) verifica-se que a combinação de leguminosas (ou oleaginosas) e cereais integrais continua sendo uma ótima alternativa para ingestão de proteínas, assim como o grão de bico, o feijão branco, etc. Obtendo-se todos os aminoácidos essenciais a partir dos vegetais, não há porque se falar em “proteína animal” como uma necessidade. E um mínimo de variedade vegetal, alcançando-se a necessidade calórica diária, supre a necessidade de proteína diária, estando essa questão ultrapassada há muito tempo.

O comentário sobre a soja, por exemplo, está correto na conclusão (não se deve simplesmente substituir um pelo outro, até porque a soja não precisa ser incluída em uma dieta vegetariana/vegana se não se desejar), mas completamente equivocado na premissa (isso acontece pela questão dos micronutrientes, não das proteínas; além disso, deve-se realmente evitar o excesso de soja, e dentre os derivados há melhores e piores opções).

Quanto a cuidar dos detalhes da alimentação infantil, qualquer criança com orientação pediátrica deveria ter esse cuidado observado pelos pais. Comendo carne ou não. Porque crianças criadas a base de fast food, bolachas, frituras, “petit suisse” e outros produtos lotados de gordura, açúcar, corantes e conservantes certamente terão deficiências sérias também (com o risco de serem obesas com a chamada “fome oculta”/deficiência marginal), sem contar os recentes estudos relacionando corantes e conservantes largamente utilizados na indústria em distúrbios como a hiperatividade (vide ).

A verdade é que pra se conseguir uma alimentação equilibrada, o cuidado - comendo carne ou não - é o mesmo. Infelizmente o que vemos nessa matéria, mais uma vez, é um parecer do vegetarianismo/veganismo baseado na pirâmide alimentar tradicional e não em suas características próprias, incluindo toda a variedade de cereais, leguminosas, oleaginosas, sementes, frutas, tubérculos, legumes, verduras, algas, cogumelos e especiarias, além de óleos e açúcares com moderação e qualidade selecionadas.

A matéria, da maneira como editada, certamente afasta indevidamente novos adeptos e desencoraja mães e pais a incentivarem desde a tenra infância e adolescência esse ótimo hábito alimentar.

Aos leitores desse site, tirem suas conclusões não apenas com base no argumento de autoridade de um único endocrinologista, mas em uma série de estudos sobre o assunto (muitos indicados aqui mesmo).


Abraços a todos e até a próxima.
Renata Octaviani Martins
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A moda do vegetarianismo – e seus riscos

Entenda quais são os perigos e como é possível manter uma vida saudável com uma dieta exclusivamente vegetariana

Quando deu uma entrevista à ONG Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais (Peta), em abril, o ex-Beatle Paul McCartney causou furor. Segundo ele, uma das principais medidas que uma pessoa pode tomar para ajudar a combater o aquecimento global, e por tabela o sofrimento dos animais, alvo do Peta, é se tornar vegetariano. Para McCartney, as quantidades de água e terra usadas na produção de carne tornam a pecuária uma das maiores culpadas pelas mudanças climáticas. Como o músico, muitas outras celebridades, como os atores Richard Gere e Brad Pitt, por exemplo, têm adotado o vegetarianismo, um tipo de mudança de hábito que vem crescendo, como comprova o número cada vez maior de produtos vegetarianos que aparecem nos supermercados e de restaurantes naturais – alguns de chefs renomados – que são montados nas cidades brasileiras.

Para deixar de lado a carne vermelha, considerada a maior vilã tanto em termos de danos ao ambiente quanto de saúde, e outras carnes, no entanto, é preciso ter cuidado para não desequilibrar a alimentação. "O importante é saber que tanto quem come carne quanto os vegetarianos podem ter problemas de saúde por conta de deficiências na alimentação", diz o endocrinologista e nutrólogo João César Castro Soares, da Universidade Federal de São Paulo. Segundo ele, o aumento do número de produtos e restaurantes naturais reflete uma quantidade crescente de pessoas que optam por uma dieta vegetariana, ou parcialmente vegetariana. "As pessoas evocam filosofia de vida, questões culturais e religiosas e medo de doenças cardiovasculares para reduzir o consumo de carne", diz.

FAMOSOS
Vegetarianos convictos, o ator de Hollywood Richard Gere (à esq.)
 e o ex-Beatle Paul McCartney fazem lobby por esse tipo de
comportamento para salvar o planeta

Quem não liga para o destino do gado ou para o aquecimento global tem nas doenças cardiovasculares um motivo para diminuir a ingestão de carne vermelha. Responsáveis pela morte de 32% dos homens e 27% das mulheres, segundo dados divulgados pela Organização Mundial da Saúde em outubro, as doenças cardiovasculares têm entre suas causas o acúmulo de acido úrico e colesterol, gerados pelo consumo em grande quantidade de proteínas animais, presente nas carnes. "O recomendado é ingerir carnes vermelhas duas ou três vezes por semana, intercalando com carnes brancas”, diz Soares.

Como abandonar a carne vermelha
Reduzir a ingestão de carne vermelha não é uma tarefa fácil num país onde o consumo de carne bovina passa de 37 quilos por pessoa por ano. A saída mais simples é aumentar o consumo de carnes como as de frango e peixe. Mas quem faz isso não é considerado um vegetariano. Para tanto, é necessário cessar completamente a ingestão de todo o tipo de carne. Assim, a forma mais segura de rumar ao vegetarianismo é optar por uma dieta ovolactovegetariana, que inclui, além dos vegetais, pratos à base de derivados de leite e ovos. “Assim a pessoa não ficará sem as proteínas animais presentes nas carnes”, diz Soares.
SEM CARNES
É preciso ter atenção para manter uma dieta
completamente vegetariana

A opção mais radical de vegetarianismo é o veganismo, uma filosofia que vem crescendo em todo o mundo e que proíbe seus seguidores de comer e usar qualquer produto de origem animal. O endocrinologista da Unifesp lembra que muitas pessoas que adotam esse tipo de comportamento, também conhecido como vegetarianismo restrito, substituem as carnes pela carne de soja, o que pode trazer carências nutricionais.

"A soja é o alimento que mais se aproxima da carne pela quantidade de aminoácidos que possui, mas ela não substitui totalmente a carne por falta de proteínas animais", explica. Segundo Soares, nesses casos é preciso recorrer a suplementos alimentares, como o de vitamina B12, presente apenas em produtos de origem animal. "A falta dessas proteínas e vitaminas pode causar problemas como anemia, queda de cabelo e fraqueza muscular".


Alerta: o vegetarianismo restrito não é para crianças

De acordo com Soares, a opção pelo vegetarianismo tem atraído principalmente os jovens, e muitos deles tentam transmitir esses valores para seus filhos, o que pode ser perigoso caso a opção da dieta seja muito radical. "O vegetarianismo restrito é totalmente contra-indicado para crianças e adolescentes com menos de 18 anos", diz. Ele explica que a falta de proteínas animais pode prejudicar muito o crescimento e o desenvolvimento da criança e trazer problemas como alterações funcionais nos órgãos.

Quando os ideais da família são intransponíveis e os pais desejam criar seus filhos com valores vegetarianos restritos, a solução é se preparar para cuidar diariamente de todos os detalhes da alimentação diária das crianças. "Nesses casos é preciso procurar conselho médico para evitar prejuízos para a vida da criança".

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