junho 10, 2009

O que será dos animais domésticos num Mundo Vegano – Parte 4

Sobre os chamados “animais de estimação”

Cães e gatos, bem como outros animais ditos de estimação, gozam de um status diferenciado em nossa sociedade. As explicações psicológicas e antropológicas para esse fenômeno são muitas e não serão debatidas aqui. Restringiremos a discussão aos aspectos referentes às vantagens dessa interação.

A manutenção de animais como animais de estimação pode resultar em interações positivas ou negativas. É claro que se analisarmos apenas pelo ponto de vista do ser humano essa interação será quase sempre positiva, mesmo porque quando ela se torna inconveniente a tendência é se desfazer do animal. Portanto, a análise da interação entre homens e animais de estimação deve ser feita pelo ponto de vista do animal.

O homem adota como animais de estimação animais domésticos, silvestres ou exóticos. Outros artigos já discutiram a domesticação de animais silvestres e exóticos, eles são unânimes em esclarecer que, pelo ponto de vista do animal, a vida em liberdade é melhor do que o cativeiro. Portanto, restringiremos essa discussão às vantagens e desvantagens da domesticação de animais domésticos, ou seja, animais cujo perfil genético foi modificado por seleção antrópica e que diferem das populações selvagens.

Espécies domésticas, em geral, não repelem o jugo humano. Isso pode levar à dedução de que essas são espécies que apreciam e se beneficiam da convivência com seres humanos, no entanto, devemos considerar que esses indivíduos, após nascidos, não tem outra escolha senão se submeter aos cuidados do ser humano.

Uma outra evidência pouco fundamentada de que essas espécies se beneficiam da convivência com seres humanos é que suas populações existem em tamanhos superiores aos das espécies silvestres. Essa falsa vantagem, no entanto, apenas demonstra que a criação animal, como a maior parte das atividades antrópicas, tende a extrapolar a capacidade suporte das áreas, degradar e modificar os ambientes e desalojar outras espécies de seus habitats. Portanto, para as demais espécies do planeta, exceto o ser humano, a existência de muitos indivíduos de algumas poucas espécies domésticas é algo negativo.

O fato do homem manter essas espécies em grandes populações não deve ser considerado uma vantagem nem mesmo para elas, uma vez que o indivíduo, e não a espécie em si, é que é sujeito de direito. E para o indivíduo pouco importa o estatus de sua espécie, se abundante ou não. Pelo contrário, a grande população mantida predispõe os indivíduos da espécie à exploração ou no mínimo ao abandono.

Portanto, a análise das vantagens e desvantagens da domesticação deve ser feita pelo ponto de vista do indivíduo animal e do ambiente.

Sabemos que as pessoas podem manter cães, gatos e mesmo porcos, galinhas ou vacas como animais de estimação. Esses animais, enquanto indivíduos, certamente podem se beneficiar dessa convivência, dependendo tão somente da boa vontade de seu mantenedor. Se seu mantenedor cuidar bem deles, viverão bem; se cuidar mal, viverão mal, mas de toda maneira eles não estão livres dessa dependência e boa vontade.

Além disso, há uma grande distância entre dar abrigo a um animal que necessite e que depende da atenção humana e entre fazer nascer esse animal. E a diferença é, precisamente, que no primeiro caso age-se como a solução para um problema e no segundo caso age-se como a causa do problema.
Fazer nascer um animal que para sempre dependerá do ser humano, mesmo que com a intenção de dar-lhe cuidado ou transferir seus cuidados a terceiros é na verdade um ato que envolve grande responsabilidade. Com frequência esses animais terminam em lares que não lhes darão o tratamento que merecem ou serão abandonados. O problema que envolve as populações de cães e gatos em todo o mundo apenas ocorre porque a decisão em relação à sua reprodução encontra-se na consciência de seus donos.

Diferente do caso em que o animal é adotado e nesse caso tutelado, a pessoa que adquire um animal mediante uma transação comercial torna-se seu proprietário. O animal é, então, um produto. Ele vale tanto quanto o comerciante cobra, e o propósito de seu nascimento é satisfazer a uma demanda, seja ela uma vontade ou uma carência humana.

Animais assim criados são trazidos ao mundo para servirem a um propósito humano, porque não há como defender que esse nascimento se deu para atender ao propósito do animal, visto que o animal não pode ter interesses antes de haver sido concebido. Seres humanos e outros animais só se tornam sujeitos de direito após sua concepção e aquisição de certa senciência. Portanto, fazer nascer animais de estimação é uma demanda humana e não uma demanda animal.

Cães e gatos, embora no ocidente na maioria das vezes não se prestem a fornecer carne, pele ou outros produtos, são como os animais de corte resultado de uma enorme cadeia de exploração. Esses animais são reproduzidos seletivamente de modo a aprimorar características consideradas pelos seres humanos como desejáveis. Além disso, dentro de uma ninhada, animais que não atendem a esses padrões são prontamente descartados ou abandonados.

Fêmeas são mantidas em canis e gatis apenas com o propósito de servirem como matrizes. Elas concebem ninhada após ninhada, até que, com a queda da fertilidade, são também descartadas. Seus filhotes são produtos empacotados em embalagens fofinhas, comercializadas em lojas de animais ou diretamente a particulares.

Na outra ponta dessa cadeia produtiva temos os animais que por um ou outro motivo tornaram-se indesejáveis, seja porque cresceram demais, não são mais fofinhos, seja porque os donos irão se mudar para um apartamento, seja porque os donos não sabiam que eles necessitavam comer e defecar todos os dias, seja porque adoeceram e o custo do tratamento excede o preço de um animal novo na loja, etc. Então esse animal é abandonado ou doado para uma pessoa que não se importa com esses seus “defeitos”.

Geralmente pessoas que adotam animais abandonados são conscientes de que uma coisa é manter animais recolhidos e outra é reproduzi-los. Quem recolhe animais geralmente os castra e os mantém, ou doa para quem se prontifica a mantê-los. Essas pessoas não veem animais como produtos, mas como entes sencientes que já nasceram e que dependem de cuidados humanos.

A cadeia produtiva acima descrita é o caso extremo, que descreve o processo produtivo de um canil ou gatil comercial, mas é daí que provém a maior parte dos animais de raças puras. Particulares também podem procriar animais em suas casas e colocar os filhotes para venda ou doação. De uma ou de outra forma os animais acabam perdendo. Animais comprados, ainda que de particulares e não de canis e gatis comerciais, não escapam do mesmo destino.

E mesmo para o caso de animais que sejam doados, não podemos deixar de nos questionar: Será que esses animais precisariam ter nascido? Com animais abandonados nas ruas, em abrigos, faz sentido um particular colocar sua cadela ou sua gata para cruzarem, mesmo sabendo que seus filhotes serão adotados em outros lares? E mesmo que essa adoção seja certa, será que os novos proprietários não terão a mesma ideia de reproduzir seus animais, dando assim origem a uma prole que não poderá ser indefinidamente absorvida, indo muitos de seus filhos e netos ir parar nas ruas ou no serviço de controle de zoonoses?

Portanto, reproduzir animais, mais do que uma atividade de grande responsabilidade envolve um ato de grande irresponsabilidade.

Veganos e defensores dos direitos dos animais tendem a gozar dos benefícios da convivência com animais “de companhia”, mas na maior parte dos casos esses animais não foram gerados para satisfazer a essa demanda do indivíduo. Eles eram animais que já haviam nascido e que foram rejeitados pela sociedade, e então adotados.

Em um mundo ideal a sociedade cuidaria para que os animais já nascidos levassem vidas longas e felizes, mas cuidaria para que não nascessem outros. Fazendo-se isso seria quebrado o eterno ciclo de dependência. Essa seria a única maneira de evitar que cães e gatos fossem explorados e abusados.

Epílogo

Considerando que animais domésticos são organismos geneticamente selecionados para suprir o homem com determinado recurso; que esses organismos não existiam antes dessa seleção e que sua introdução em ambientes naturais é inviável por diferentes motivos; que sua existência será sempre dependentes de cuidados humanos; que sua existência atende apenas aos interesses do ser humano, mas não o de outras espécies ou do meio ambiente, entendemos que animais domésticos compõe um grupo especial de animais e que a preocupação conservacionista não se aplica em seu caso.

Por outro lado, considerando que a condição para o reconhecimento de direitos individuais é o atributo da senciência, e que não se pode defender os direitos de organismos que ainda não foram concebidos, entendemos que animais domésticos já nascidos são sujeitos de direito, e por isso devem ter suas vidas preservadas. No entanto, a procriação desses animais deve ser evitada.

A ideia de que em um mundo vegano ideal os animais domésticos não mais existiriam pode soar extrema e impopular mesmo para veganos. Isso ocorre porque tendemos a raciocinar com um forte componente emocional. E quem não gosta da companhia de um cão ou gato? Ou mesmo da oportunidade de conviver harmonicamente com animais de fazenda?

Nós, e a maioria das pessoas conhecidas, mantemos animais em nossas casas. Temos prazer em conviver com eles e sabemos que alguns deles sentem prazer em conviver conosco. A maioria das pessoas em nosso circulo de relações dá bom tratamento aos animais em suas casas, embora saibamos que essa pequena amostragem não reflete a realidade da maioria.

Essa relação, embora harmônica no nível individual, não justifica a defesa da domesticação animal em termos globais, pois estar-se-ia utilizando a exceção para criar uma regra. São realmente poucos os animais domésticos que levam vidas felizes e mesmo esses são produtos da exploração. Alguns frutos dessa exploração são animais rejeitados e que foram posteriormente adotados. Adotar animais rejeitados é um ato de amor, mas não reproduzi-los. Por outro lado adquirir animais de pessoas que propositalmente os fizeram nascer é ser condizente com seu ciclo de exploração.

De toda forma, seja qual for o tratamento que lhes dediquemos, animais domésticos serão para sempre dependentes do ser humano, e isso por si só coloca sua existência em uma condição frágil.
Parte de nossa luta por um mundo melhor envolve fazermos o exercício mental de pensar de que forma será esse mundo, aonde queremos chegar. Embora eu mesmo me beneficie da convivência com animais domésticos, todos adotados, sou consciente de que o mundo só será perfeito quando não houverem mais animais dependendo do ser humano para nada.



Sérgio Greif é biólogo, mestre e ativista pelos direitos animais. Formado pela UNICAMP em 1998, é coautor do livro “A Verdadeira Face da Experimentação Animal” e autor de “Alternativas ao Uso de Animais Vivos na Educação”. Entre outros assuntos, Sérgio se interessa por bioética, gestão de sistemas de saúde e métodos substitutivos ao uso de animais na ciência e ensino. É colunista da ANDA.

 Fonte: ANDA

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