junho 10, 2009

O que será dos animais domésticos num Mundo Vegano – Parte 2

De que forma o veganismo levará as espécies domésticas à extinção

Pode parecer uma situação que depõe contra o veganismo o fato de que seu advento implicará na extinção de espécies animais, mas isso apenas quando analisamos a situação pelo ponto de vista do ser humano educado no sistema de crença antropocentrista.

As variedades de animais que serão extintas com o veganismo não contribuem para a biodiversidade em seu estrito senso. Pelo contrário, sua existência contrapõe a existência de outras formas de vida, essas sim capazes de uma vida independente do jugo humano. Além disso, dar continuidade a essas formas de existência é condená-las eternamente à dependência da boa vontade humana. Dessa forma, a extinção parece ser uma opção desejável por todos os pontos de vista, exceto daqueles que objetivam sua exploração.

O cenário mais provável é que as pessoas não se tornem veganas da noite para o dia. Assim, podemos entender que as populações de animais domésticos declinem “naturalmente”, pelas próprias forças do mercado. Em um mundo tendente ao veganismo, os criadores de animais e os funcionários que atualmente atuam em algum nível dessa cadeia produtiva teriam gradativamente de procurar por atividades mais promissoras. Quando diminui a demanda, diminui a oferta.

Em um cenário bem menos provável, mas apenas para considerar todas as hipóteses, suponhamos que amanhã a humanidade toda perdesse o interesse na criação de animais. De uma hora para a outra “perderiam a serventia” 1,3 bilhão de bois e vacas, 1 bilhão de ovelhas e carneiros, 700 milhões de cabras e bodes, 930 milhões de porcos, 110 milhões de equinos e 18 milhões de frangos e galinhas, entre outros tantos animais.

Certamente a forma mais rápida para se livrar de bilhões de “animais indesejáveis” seria também a mais truculenta e sádica: o extermínio em massa, a incineração, a vala comum. Presenciamos essa cena em eventos de epidemias zoonóticas e ela seria também possível no caso dessa perda repentina de interesse pelos produtos de origem se dar por uma súbita revelação no contexto da saúde, ecológica, etc. Mas supondo que esse súbito vegetarianismo tivesse motivos éticos, esse extermínio não seria uma alternativa viável.

Abandonar os animais nas fazendas à própria sorte também não seria uma alternativa justa, pois esses animais são frutos de nossas atividades e teríamos responsabilidades morais para com eles. Em fazendas abandonadas esses animais morreriam à mingua, de fome, de doenças ou indefesos, atacados por predadores. Nos raros casos em que sua sobrevivência fosse viável, que esses animais pudessem se alimentar e se defender de predadores, o ônus ficaria para o ambiente, na forma de interações interespecíficas desarmônicas, transmissão de doenças para espécies silvestres, degradação ambiental, etc. De uma ou de outra forma, simplesmente abandonar as fazendas cheias de animais seria um ato de irresponsabilidade para com a vida e o meio ambiente.

Supondo esse cenário, bastante improvável, da perda repentina de interesse em bilhões de animais domésticos, por um ganho súbito de consciência ética, o que acredito que aconteceria é que seres humanos voluntários se encarregariam de manter esses animais nas fazendas, alimentados e afastados de predadores. As fazendas, assim, se transformariam em santuários de animais.

Porém, torna-se difícil crer que uma confraria de voluntários se prontificaria a diariamente alimentar animais, limpar seus recintos e manter seus predadores afastados apenas para evitar que sua espécie fosse extinta, porque esse é por si um trabalho sem objetivo final.

Diferente dos santuários de animais silvestres, onde animais recuperados são colocados para se reproduzir e, se possível, serem reintroduzidos em campo (o objetivo final é reintroduzir o animal em campo), santuários de animais domésticos devem se destinar a garantir a sobrevivência de animais já nascidos, sem no entanto permitir sua reprodução ou acesso a áreas selvagens (o objetivo, nesse caso, é garantir a melhor vida possível para esses animais, e a morte o mais tardia possível).

Está claro que à medida que esses animais fossem morrendo — de morte natural — os campos antes por eles ocupados ou destinados a produzir alimentos para seu sustento estariam liberados para produzir alimentos para o ser humano, ou melhor ainda, para permitir que a sucessão ecológica restabelecesse na área degradada os ecossistemas naturais, voltando ao local as espécies animais e vegetais originais. A vida dessa forma não sucumbiria, mas floresceria.

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Sérgio Greif é biólogo, mestre e ativista pelos direitos animais.

Fonte: ANDA

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