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julho 17, 2010

Flexitarianos, os "vegetarianos" que comem carne/peixe

Uma nova moda está sendo inventada na terra do tio sam. Um vegetariano que come carne, sim! Você leu certo, um vegetariano que come carne. Na minha época isso era chamado de onivorismo e não flexitarianos(*).
Segundo o criador (sic) deste regisme alimentar, ele é para quem gosta de coisas saudáveis mas não dispensa carnes. Uma bobagem enlatada a moda estadounidense. Se não está vendendo mais, troque o nome e a embalagem. Um princípio do marketing.
Na reportagem diz que os vegetarianos não compactuam deste absurdo. Como podem ver, eu também concordo que isso é a maior bobagem que alguém pode pensar.
O termo vem de vegetarianos com flexíveis. Um total flex alimentar, o que os antigos chamavam de come tudo.


Carnívoros &  Flexitarianos

A matéria de capa do semanário alemão Der Stern, de 27.5.10, Nº 22, saiu com a manchete: “Comei Menos Carne!”.
No subtítulo vinha: “O que o consumo de (carne em) massa está provocando na Alemanha”. O artigo começava assim:

O preço é barato, mas a carne é fraca. Todos os dias comemos carne de gado, frango e porco. Porque quase nada custam. À primeira vista. Na verdade o preço é enorme. Pessoas, animais e meio ambiente pagam caro por esta insaciabilidade. Está na hora de mudar.”

Mais de 50 bilhões de animais são abatidos anualmente em todo o mundo. Os rebanhos ocupam uma quarta parte dos continentes. De acordo com estudos, eles causam de 18 a 51 por cento das emissões responsáveis pelo efeito estufa. Bem mais do que as geradas pelos carros.

A produção de um quilo de carne consome 15 mil litros de água. Os dejetos dos animais contaminam o solo, rios, lagos e mares. Para alimentá-los, usa-se uma parafernália farmacêutico-química, derrubam-se florestas e cultivam-se monoculturas, inclusive geneticamente manipuladas.

Segundo um estudo norte-americano, o número global de obesos, um bilhão, já superou o de subnutridos, 800 milhões! E se o desenvolvimento continuar nesse ritmo, a produção mundial de carne irá dobrar até 2050, chegando a 465 milhões de toneladas por ano.

No Brasil, de acordo com lenvantamento feito pelo Ministério da Saúde e publicado no Estadão, “Quase metade dos brasileiros têm excesso de peso. (…) A proporção de pessoas nessa situação subiu de 42,7% para 46,6% entre 2006 e 2009.”

E tudo para quê? Para melhorar a qualidade de nossa alimentação? Ou para aumentar os lucros dos produtores e do agronegócio? – “De janeiro a maio deste ano as exportações do agronegócio sul-mato-grossense atingiram US$ 879.277.517, aumento de 50% comparado aos (…) do mesmo período de 2009.”

O consumo per capita de carnes nos EUA aumentou mais de 60% de 1909 a 2008. Dos três tipos de carne, bovina, suína e de frango, foi o consumo per capita da carne de frango que mais aumentou: 540% em 100 anos!

Hoje, os norte-americanos consomem, num só dia, tanta carne de frango quanto consumiam num mês na década de 30 do século passado! O Brasil é o 4º maior consumidor de frango per capita. O maior é o Kuwait, com 72,5 kg por pessoa/ano. Na Índia, é só 2,2 kg por pessoa/ano!

Segundo a Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, “29% das 3.130 amostras de 20 alimentos apresentaram irregularidades, como ingredientes ativos não autorizados e resíduos de agrotóxicos acima do permitido”.

A discussão global sobre o tema já gerou até uma nova espécie de consumidor, o flexitariano. Trata-se de um eufemismo para descrever vegetarianos ocasionais, ou seja, inconsequentes. Evitam consumir peixe e carne, mas de vez em quando não resistem.

Na Alemanha, segundo a revista Stern, 1,6 % da população é vegetariana. São 1,3 milhões dos cerca de 82 milhões de habitantes. Em 2009, os 80,7 milhões de “carnívoros” consumiram 39 quilos de carne suína por pessoa, 11 quilos de frango e quase 9 quilos de carne bovina. Isso dá, sem osso, 162 gramas por pessoa/a. Bebês e idosos incluídos.

Os alemães consomem tanta carne porque é barata. Em 1960, eles tinham de trabalhar 2 horas e 37 minutos para comprar um quilo de bife de porco. Hoje, só meia hora. Um quilo de frango, há 50 anos, lhes custava duas horas e 13 minutos de suor. Hoje, só 13 minutos.

A Alemanha sempre foi famosa por seus carros, suas salsichas e frios. Mas enquanto a indústria automobilística mantém um alto padrão tecnológico, a carne produzida no país, segundo a Stern, é de baixíssima qualidade. As causas são óbvias.

Até 1960, os colonos alemães criavam seus animais “naturalmente”, visando a qualidade do produto. Hoje, na produção moderna de carne, “idealizada” nos EUA, os bichos tornaram-se puros objetos de engorda.

De 100 animais consumidos no país, 99 não viveram. Foram engordados! Um pinto industrializado aumenta 30 vezes o peso do seu corpo em 4 semanas. (Se um ser humano fosse alimentado do mesmo jeito, aos três anos já estaria pesando 90 quilos!)

Um porco de 90 quilos, pela lei alemã, precisa dispor de tão somente 75 por 100 centímetros de espaço para “viver”. Os frangos sofrem ainda mais: só lhes cabe o equivalente à meia folha A4. Se as pessoas vissem como são criados e abatidos os animais, perderiam o apetite.

Nessas prisões de engorda, os bichos não atingem seu peso ideal sem fármacos. Na terra da “bratwurst”, eles “consomem” o dobro de antibióticos que a própria população. E a maioria dos “carnívoros” teutônicos já é imune – “naturalmente” – aos antibióticos.

A questão não se reduz, é claro, só à Alemanha. Trata-se de um fenômeno global. Por isso, quem tem um pouco de amor-próprio deveria reavaliar seu consumo de carne. Mais ainda, quem tiver conscientização ecológica. Mas o ideal mesmo é fazê-lo por respeito à vida dos animais.

Leia mais em Carta Capital.24.06.2010 – O Pecado da Carne: “Maior “vilã” do clima, a pecuária busca maneiras de crescer sem desmatar e com menos emissão de gases que causam o efeito estufa”.



Divididos entre carnes e verduras surgem os flexitarianos
Paulistana dá preferência aos vegetais, mas não separa o bacon da farofa.
"Segunda-feira sem carne" é nome de campanha que acontecerá em SP.



Ampliar FotoFoto: Claudia Silveira/G1

A química Maria Rosa Alcântara costuma ir a restaurante vegetariano por gostar da comida, mas não deixa de comer carne (Foto: Claudia Silveira/G1)

A estudante Paula Mikami, de 30 anos, não come carne no dia a dia porque o gosto não lhe agrada, mas não se considera vegetariana. Isso porque, de vez em quando, Paula come frango e peixe, dependendo da necessidade, da companhia e das opções de comida que ela tem na ocasião. Por causa desse hábito alimentar, Paula é uma flexitariana, ou “quase vegetariana”, o que quer dizer que ela - de certa forma - segue a dieta vegetariana, mas de forma flexível, sem rigidez no que pode ou no que não pode comer. 

Apesar do nome estranho, a explicação é simples: flexitarianos são aqueles que seguem a dieta vegetariana, mas se permitem comer carne de vez em quando. “Eu não tenho vontade de comer carne, eu como pela ocasião mesmo. Se estou em uma feijoada, por exemplo, e a farofa tem bacon, eu não vou separar. Eu como numa boa”, exemplifica a estudante. 



A reportagem encontrou a química Maria Rosa Alcântara, de 48 anos, almoçando em um restaurante vegetariano na região dos Jardins, em São Paulo. Ela conta que vai ao local, ao menos, três vezes por semana. “Eu adoro comida vegetariana, como por prazer, mas se vou a um churrasco, como picanha vermelhinha, o que for”, diz a química, que conta comer carne, no máximo, duas vezes por semana.

A gerente do restaurante vegetariano Apfel Bistrô, Letícia Bressan, observa que o número de clientes como Maria Rosa tem crescido de uns tempos para cá. “Acho que as pessoas estão perdendo um pouco do preconceito com relação à comida vegetariana e estão procurando os benefícios de uma comida saudável”, diz Letícia, que nunca tinha ouvido falar em flexitarianismo, mas acredita que há muito gente flexitariana por aí. 
De onde veio
Há algum tempo se fala em flexitarinismo. A palavra foi “criada” na década de 1990, nos Estados Unidos, e só recentemente se tornou conhecida entre os que lidam com dietas e alimentação ou que se preocupam com um estilo de vida saudável.

Foi a norte-americana Dawn Jackson Blatner, especialista em alimentação e autora do livro “The flexitarian diet” (em tradução livre, “A dieta flexitariana”), quem popularizou a dieta e a levou para as prateleiras das livrarias. “Todos nós somos flexitarianos em algum grau”, dispara a autora.

No livro, não editado no Brasil, a médica especialista em dietas cita pesquisas e afirma que os flexitarianos pesam 15% menos que os “carnívoros”, têm menos problemas de diabetes, câncer e ataques cardíacos, e ainda vivem 3,6 anos a mais.

“Esse é uma nova forma de comer que diminui a quantidade de carne sem excluí-la completamente. Você tem os benefícios da dieta vegetariana na saúde sem ter de seguir regras severas”, argumenta a autora, que lançou recentemente uma nova edição do livro e, desde então, não para de viajar para lançá-lo em outros países.  

Ampliar FotoFoto: Divulgação

Flexitarianos seguem uma dieta vegetariana com flexibilidade (Foto: Divulgação)

"Flexitarianos são diferentes de um carnívoro moderado ou de um onívoro, por isso, precisavam ter um nome próprio. Flexitarianos acordam todos os dias com a intenção de comer mais vegetais", justificou a autora ao G1.
Segunda sem carne
Para os que acham a idéia de diminuir a carne no dia a dia uma ideia pertinente, uma segunda-feira pode ser um bom dia para começar. Ou então, um dia para abolir de vez.

Essa é a proposta da Sociedade Vegetariana Brasileira na campanha "Segunda sem carne". O movimento vai concentrar suas ações no sábado, dia 3 de outubro, no Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo. O mote da campanha é "Pelas Pessoas. Pelos Animais. Pelo Planeta".
Meio ambiente
A preservação do meio ambiente também é apontada pela autora como uma das vantagens de diminuir a carne no dia-a-dia, pois “uma dieta vegetariana emite menos carbono” que as dietas tradicionais.

Esse é um dos argumentos usados pelo consultor de negócios em informática Marco Antonio de Nápoli, de 55 anos, quando conversa com amigos sobre o seu hábito de não comer carne no dia a dia. ‘Se cada ser humano reduzir o consumo de carne vermelha para uma vez por semana, o impacto no meio ambiente se tornaria significativo”, defende.

Na dieta de Nápoli, predominam folhas, legumes, frutas e cereais integrais. Tanto em casa como na rua, ele dá preferência a pratos vegetarianos, mas nem sempre é possível se sustentar com as opções dos restaurantes e self services que ele tem quando vai almoçar a trabalho.

“Principalmente quando passo três, quatro dias almoçando fora por causa do trabalho. Não há muitas opções de comida natural por aí”, diz o consultor, que aboliu a carne vermelha do cardápio há 25 anos, mas come frango e peixe “de vez em quando”. “Sou flexitariano por causa da necessidade”.

Para a socióloga Marly Winckler, presidente da Sociedade Vegetariana Brasileira, quem segue o flexitarianismo adota uma postura “cômoda” em relação à alimentação.

“Eu respeito a opção de casa um. Às vezes, fico um pouco perplexa por as pessoas não tomarem decisões mais drásticas e pararem de comer carne de uma vez. Mas isso é algo bem pessoal”, diz. 

Mesmo assim, ela acredita que a idéia de diminuir carne no dia a dia é válida, tanto para a saúde quanto para o meio ambiente.

Cuidados
Mas não é porque a dieta flexitariana soa atraente do ponto de vista da saúde que dá para restringir a ingestão de carne uma vez por semana, por exemplo.

“É preciso ter o acompanhamento de um nutricionista porque essa mudança vai mexer com a quantidade de nutrientes ingeridos. É preciso equilibrar”, alerta a nutricionista Renata Maria Padovani, pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alimentação, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O problema não é tanto a proteína, mas os micronutrientes que estão na carne, como o ferro. Dessa forma, mudar a dieta precisa ter um objetivo, seja cuidar da saúde ou proteger o meio ambiente.

Se a mudança for somente para perder peso, é melhor pensar em outras alternativas. “Às vezes, a pessoa se engana ao achar que, seguindo uma dieta vegetariana, ela vai emagrecer”, diz a nutricionista. "Não é bem assim, há comidas vegetarianas que são muito calóricas e podem engordar".

O que é preciso entender é que vegetariano é uma coisa e flexitariano é outra. A quantidade de carne no dia a dia vai depender da fome e da vontade de cada um. 


(*)Flexitarianismo
Flexitariano trata-se de um acrónimo que funde os conceitos “vegetariano” e “flexível”, uma nova tendência nutricional que se aplica a quem privilegia a ingestão de alimentos vegetais, mas permite pequenas concessões como comer também peixe, e até, esporadicamente, uma porção de carne.
Os flexitarianos são geralmente pessoas motivadas para o vegetarianismo, por razões de saúde, ecológicas ou económicas. Em casa preparam apenas pratos vegetarianos, mas fora de casa, por exemplo num churrasco ou jantar em casa de amigos, não pedem uma ementa vegetariana especial e consomem carne ou peixe.

O termo flexitarianismo foi usado pela primeira vez em 17 de Outubro 1992 no jornal Austin American-Statesman. Nesse número, a jornalista Linda Anthony escreveu um artigo intitulado «Acorn serve comida vegetariana». O artigo tratava da recente abertura do novo Café Acorn e assinalava que a proprietária, Helga Morath, denominava a sua comida de “flexitariana”. O termo, entretanto, difundiu-se noutros países, nomeadamente em Espanha, Itália e Brasil. Não é ainda usado em Portugal, sendo a designação mais próxima a de semi-vegetarianismo. No entanto, em Setembro 2006, a revista Prevenir apresentou um pequeno artigo em que dava conta deste novo conceito, considerando o flexitarianismo a nova alimentação verde.

Em 2003, a American Dialect Society votou flexitariano como a palavra mais útil do ano, e definiu-a como “um vegetariano que ocasionalmente come carne”.
Refira-se que muito poucas pessoas consideram que são flexitarianas, e que as organizações vegetarianas não aceitam esta dieta como um tipo de vegetarianismo.

julho 07, 2010

Ética, dietas e conceitos

Questão de ética – Sônia T. Felipe

Vegetusiano, vegetariano ou vegano? Qual a diferença? Se perguntarmos a qualquer pessoa na rua o que lembra a palavra “vegetariano”, a maioria vai responder que essa palavra designa uma pessoa que não come nada de animais. Se perguntarmos o que quer dizer “vegano”, poucas são as pessoas que conhecem o termo. E raras são as que conhecem a distorção deliberada que os “vegetarianos tradicionais” fizeram do conceito por detrás do termo. Ouvimos dos “vegetarianos” que ingerem laticínios, ovos, mel e qualquer derivado de secreções glandulares de fêmeas de outras espécies, que a palavra deriva do latim, vegetus, cujo significado é vigoroso.


Se fosse verdade que a palavra inglesa vegetarian derivasse do latim, conforme querem os “ovo-lacto-api-vegetarianos” conservadores, a palavra não poderia ter sido escrita desse modo, deveria ser: vegetusian. Em português deveria ser, então, vegetusiano. Leite e ovos não dão em árvores, nem são extraídos do solo. São extraídos do corpo de fêmeas de outras espécies.

Se os vegetarianos conservadores de fato estivessem a nomear sua escolha com base no conceito latino, derivado da palavra vegetus, deveriam dizer-se vegetusianos, deixando a palavra vegetariano, que foi sequestrada por eles para designar falsamente sua dieta, repleta de produtos de origem animal. Que pena! Poderíamos agora ter mais transparência ética na designação do tipo de dieta adotada pelos ovo-lacto-api-vegetarianos.

Os que não adotam uma dieta pensando apenas em se tornar vigorosos, e sim em erradicar de seu prato qualquer comida que resulte da exploração de animais, teriam então o termo correto para se autodesignar: vegetarianos, isto é, os que comem exclusivamente alimentos de origem vegetal.

Quando os vegetusianos usam a palavra vegetariano para designar seu “estilo” alimentar, cometem um erro. Fazem passar sua escolha pelo que de fato ela não é. Vegetarianos deveriam ser somente os que se alimentam exclusivamente de produtos de origem vegetal. Vegetusianos deveriam ser aqueles que adotam uma dieta com o intuito de se tornarem fortes, vigorosos. Para os vegetusianos a questão do sofrimento e morte dos animais é menos relevante. A maioria deles até topa participar de debates em defesa dos animais, mas seu propósito é divulgar o vegetusianismo, ainda que usando a palavra vegetarianismo. Isso confunde as pessoas.

O fundador da primeira sociedade britânica vegana, Donald Watson, denunciou em 1944 o engodo dos vegetarianos que passavam ao público a ideia de que a palavra vegetarian derivaria do latim vegetus. Segundo Watson, os “vegetarianos” assim procedem porque não conseguem explicar para as pessoas o uso do termo vegetariano para designar sua dieta, quando ela contém ovo, leite, mel e derivados destes.

Para não ter de explicar que eram vegetarianos só numa parte do conteúdo de seu prato, os conservadores inventaram essa história de que o termo vegetariano deriva do latim vegetus. Cometem um erro grosseiro, pois basta olhar o termo vegetus para ver que dali não dá para derivar vegetariano e sim vegetusiano. Uma acrobacia tem de ser feita com as letras, para escrever vegetariano como se derivasse de vegetus. Essa acrobacia devemos aos conservadores ovo-lacto-api-vegetusianos.

Uma lástima. Por sorte, após anos de insatisfação por ter de explicar para as pessoas que era vegetariano estrito, autêntico, que só comia coisas do reino vegetal, que não ingeria laticínios, nem ovos, nem mel, Donald Watson, juntamente com Elsie Shrigley e outros cinco vegetarianos estritos, fundaram a primeira sociedade vegana na Inglaterra [cf. Joanne Stepaniak, The Vegan Sourcebook]. Desde então temos esses dois termos, vegetariano e vegano, para distinguir quem come coisas de origem animal e quem não as come.

Para além da alimentação, veganos têm uma díaita, do grego, “modo de vida”, que escolhe a abstenção de todo e qualquer produto de origem animal, não apenas na hora de comer, mas também na hora da higiene pessoal, da limpeza da casa, dos acessórios de moda, dos cosméticos, dos medicamentos. Obviamente, viver um projeto de vida vegana em meio à ditadura da propriedade, exploração e extermínio de animais não é algo que possa ser concretizado de forma pura. Por isso, para ser vegano é preciso, além da honestidade com o uso do termo quando explica a outras pessoas o que a distingue das demais em seu modo de vida, muita determinação e lucidez, para desfazer, uma a uma, as pregas, dobras, rugas e os vincos da moralidade tradicional traiçoeira, ardilosa, que nos enredou nessa forma de vida que representa puro tormento para os animais.

Veganos são vegetarianos no sentido autêntico do termo. “Vegetarianos tradicionais” são vegetusianos. Sua preocupação não é com o sofrimento e morte dos animais, é apenas com seu próprio vigor. E aí, mais uma vez, erram. Ingerir laticínios é a fonte da maior parte das doenças degenerativas e crônicas do nosso tempo. Seria bom antenar-se para o sentido original do termo vegetus, que tanto dizem seguir: buscar o vigor. Ingerindo laticínios não estão apenas a torturar fêmeas bovinas, estão a produzir em seus organismos muitos males.
[cf. Frank A. Oski, Don’t Drink Your Milk!; Neal Barnard, Breaking the Food Seduction; e Foods That Fight Pain; John A. McDougall, Digestive Tune-up; Caldwell B. Esselstyn, Prevent and Reverse Heart Disease; Jane A. Plant, The No-Dairy Breast Cancer Prevention Program; T. Colin Campbell e Thomas M. Campbel II, The China Study; Keith Woodford, Devil in The Milk; Robert Cohen, Milk–the Deadly Poison].
A única saída para a saúde e vigor, sem violência contra fêmeas de outras espécies, é a díaita vegana. Abandonem a inocência, vegetusianos!

junho 29, 2010

Vegetarianismo - Gênero e Espécies

Há algum tempo noto que diversas pessoas vêm questionando o conceito de vegetarianismo, na tentativa de excluir dessa escolha alimentar a grande maioria do grupo, ou seja, aqueles que ainda utilizam ovos ou leite na alimentação.

Ainda, utilizam-se de questões terminológicas e de um termo contido nos dicionários brasileiros, o "vegetarismo", para sustentar essa posição. Discordo e exponho minhas razões:

Vegetarianismo é um termo equívoco mas certamente não é um termo equivocado, em especial para designar suas espécies. Equívoco é um termo que pode ter mais de um sentido. Assim como, por exemplo "direito" (que pode significar uma posição/lado, uma conduta, uma ciência ou um sistema de normas, apenas para ilustrar a questão).


Vegetarianismo portanto tem duas acepções: como gênero, mais abrangente, e como espécie, mais restrito.
Enquanto gênero, devemos aceitar que designa um estilo de alimentação, de um modo geral. As definições da IVU e da VegSoc (duas importantes entidades sobre a questão) acabam com qualquer dúvida:
VegSoc (Britsh Vegetarian Society, a mais antiga organização do tipo em atividade): A vegetarian is someone living on a diet of grains, pulses, nuts, seeds, vegetables and fruits with or without the use of dairy products and eggs (preferably free-range). http://www.vegsoc.org/info/definitions.html
IVU (: For the purpose of membership of IVU, vegetarianism includes veganism and is defined as the practice of not eating meat, poultry or fish or their by-products, with or without the use of dairy products or eggs. http://www.ivu.org/faq/definitions.html (mesma definição utilizada pela SVB)

Então, fica claro que para as entidades mais antigas e mais ativas, a palavra vegetarianismo engloba uma série de comportamentos, adimitindo o uso de ovos e leite. Assim, passamos ao próximo ponto: porque o nosso dicionário coloca vegetarianismo como alguém que come exclusivamente vegetais?

A primeira resposta (e a mais provável) é a de que ele se referiu apenas a vegetarianismo enquanto espécie.

Retomando, entendo - de acordo com as definições invocadas - que vegetarianisno é gênero que designa opção alimentar, do qual temos as seguintes espécies:
ovolactovegetariano
lactovegetariano
ovovegetariano
vegetariano (ou "vegetariano puro" ou "vegetariano estrito")

Assim, o "vegetariano" a que se refere o dicionário é apenas a espécie, que não come carne e não faz uso nem de leite nem de ovos.

Tanto que notamos que existe no dicionário também o termo ovolactovegetariano, inclusive indicado como referência depois da definição de vegetariano.

Outra resposta possível é que dicionários são apenas breve referências a termos diversos, não sendo dotados de definições precisas sobre todos os termos. Tanto que as palavras "lactovegetariano", "ovovegetariano" e "vegano/veganismo" sequer são mencionadas.

Quanto ao termo vegetarista, precisamos de ume breve busca em textos escritos em francês para perceber que vegétarisme e vegetarianisme são tratados como sinônimos ou no mínimo relacionados. Se o vegetarismo algum dia foi um movimento autônomo, acabou sendo absorvido pelo vegetarianismo. Ou talvez possa ser encarado como um estágio intermediário, o que acarretaria gênero (vegetariano)-> espécie (vegetarista)->sub-espécies (ovolactovegetariano, lactovegetariano, ovovegetariano).

Ora, o que nos resta se excluirmos esses grupos? O vegetarianismo estrito, ou o veganismo.

Ocorre que a fundação da Vegan Society, em Novembro de 1944, ocorreu após uma longa gestação iniciada com debates em 1909 justamente sobre a ética do consumo de derivados de leite dentro da British Vegetarian Society, e o termo "vegan" - derivado de VEGetariAN - foi criado por Elsie Shrigley e Donald Watson. Ocorre que os veganos eram conhecidos de início como "non-dairy vegetarians". Assim, é evidente que o consumo de produtos animais que não as carnes pode fazer parte da dieta vegetariana.

A diferença essencial do veganismo para o vegetarianismo estrito é a motivação, que será sempre ética. Não existe um vegano por razões não éticas (por mais que vejamos pessoas se denominando como tal). Mas pode-se argumentar que um vegano possui toda uma orientação de consumo, voltado a itens não alimentares; o que é verdade hoje em dia, mas não exclui duas realidades:
a) Existe um grande número de vegetarianos, que talvez consumam ovos e leite, que também faz suas compras pautado na sua decisão alimentar. Não são veganos, são vegetarianos, mesmo com motivação ética;
b) Existe mais de um estágio de veganismo. Não consumir ovos e leite é o primeiro, os demais dependem de adaptação.

Assim, o grande diferencial entre veganos e vegetarianos em geral é:
a) Motivação ética, cumulada com
b) Não consumir alimentos de origem animal (e, em diversos estágios que não são denominados, o "origem animal" pode ficar mais abrangente, assim como mudar-se alimentos para produtos)

O que quis mostrar com isso é que ovos e leite ainda são a grande diferenciação entre veganismo e vegetarianismo.

Quanto à afirmação de alguns de que vegetarianos que comem ovos e leite não são nada além de "onívoros que se abstêm de carne", essa afirmação deve ser revista. Até porque, os contra pontos de onivorismo são biológicos e não ideológicos, que são herbivorismo e carnivorismo.

Nesse sentido, concordo com o termo usado pela Marly Winkler da SVB ao se referir a quem come carne: creófilos, ou seja, pessoas que são afins à idéia de se alimentar com carne. Ninguém deixa de ser, biológicamente, onívoro ao escolher se alimentar exclusivamente de vegetais. Nem os veganos. Não somos herbívoros, não somos carnívoros, somos sempre onívoros com alguma opção alimentar.

E o contraponto mais adequado de vegetarianismo seria a creofilia, jamais o onivorismo. Portanto, vegetarianos em geral são onívoros que não consomem carne, podendo ou não fazer uso de ovos, leite e mel.

Por fim, não podemos esquecer que o termo "vegetariano" não vem de "vegetais" mas sim de vegetus (que significa vigoroso, saudável). Portanto, a ingestão de outros alimentos que não vegetais, desde que não sejam carne (porque o "vigoroso" não se alimenta diretamente de morte visível de um animal), não desqualifica a opção.

Aceitar essa nova definição de "vegetarianismo" é um desserviço ao vegetarianismo. Essa é uma opção alimentar que trabalha em cima da hipótese de semelhança. Da nossa com os animais, da nossa dor com a deles.

Então, porque dar força a teorias que querem ressaltar as diferenças?

Não bastasse, não podemos deixar de considerar os aspectos históricos dessa escolha.

Ninguém nega que diversos grupos religiosos (muitos com raízes milenares) são grandes difusores do vegetarianismo como o Bramanismo, Budismo, Jainismo, Zoroatrismo, Adventistas do Sétimo Dia, Hare Krishnas, entre outros. E o grande problema sempre foi o consumo de um corpo (tanto que o não consumo de ovos para muitos desses grupos normalmente é calcado na idéia de que poderia gerar uma vida).

Quiçá o berço do vegetarianismo seja o oriente. Mesmo grandes pensadores ocidentais como Pitágoras (que, aliás, era lactovegetariano) podem ter bebido dessa fonte, o que se nota ao analisar os textos de orientação de conduta a seus discípulos. Rousseau, ao escrever Emílio - Da Educação, recomenda claramente a dieta vegetariana, ovolactovegetariana.
Os escritos de Plutarco, Sêneca, Sócrates e Diógenes, além de escritores modernos como Alexander Pope, Volteire e Lamartine e um sem número de outros intelectuais sempre priorizaram o horror da idéia de se alimentar de outro corpo, de sangue. Portanto, a carne em si sempre foi o maior problema do vegetarianismo.

O que faremos se adotarmos essa nova classificação? Desconsideraremos textos e citações desses "onívoros que não comem carne"?

Aliás - e mudando o foco do assunto - embora eu entenda a necessidade de se estimular uma dieta vegana, essa tática exclusiva pode não ser a melhor. Hoje em dia muito se fala de veganismo. Entretanto, nota-se que a adesão ao veganismo parte normalmente de pessoas que já são vegetarianas.
Os novos membros quase sempre se interessa pela idéia inicial de não comer um outro corpo. Aos poucos, deixar leite, ovos e mel pode ser uma opção ou uma conseqüência inevitável da premissa adotada e que pode ser estimulada. Mas isso não tem nada a ver com o conceito objetivo.

Nota-se também uma corrente que mantém o consumo desses produtos, mas os busca em fontes mais éticas (granjas de ovos "ranch free" por exemplo, ou consomem apenas derivados dos animais dos quais cuida ou convive).

Portanto, quem se abstém de carnes em geral e come leite ou ovos também é vegetariano (gênero).

Veg Vida - por Renata Octaviani M.

junho 21, 2010

Veganismo, vegetarianismo e protovegetarianismo: definições e concepções

Direitos Animais por Bruno Müller
Introdução
Uma pequena frase chamou a atenção de algumas pessoas no meu último texto. Ela remete, de fato, a um problema prático e conceitual com o qual se defronta qualquer um que deseje refletir sobre a questão animal: a disparidade de pensamento e prática que cerca o movimento dito de “defesa” animal e que, consequentemente, põe em questão a própria definição do que é um defensor dos animais. Dizia ela:“Um ‘defensor’ dos animais que não é vegano não só faz mal a si mesmo, mas igualmente aos animais e à causa”.
O debate acerca do vegetarianismo e do veganismo está paralisado por más concepções e más definições. O progresso da causa em defesa dos animais está refém dessas limitações, pois elas colocam em xeque a própria noção da existência de um “movimento” e de quem o integra. A mais grave definição é aquela que classifica como vegetariana a dieta que inclui alimentos derivados de animais. A mais grave concepção é aquela que vê o veganismo como um fim em si mesmo.
Nesse texto pretendo abordar esses dois problemas. Com ele, pretendo defender basicamente duas hipóteses: primeiro, que não há como separar o vegetarianismo da objeção moral que o motiva, sendo a limitação do vegetarianismo a uma corrente dietética uma invenção contemporânea; segundo, que essa mesma objeção moral é limitada e foi, no presente, escondida por aqueles mesmos que se propunham a difundir o vegetarianismo. A partir dela, chego a duas conclusões: primeiro, que tanto do ponto de vista ético quanto dos pontos de vista lógico e etimológico, portanto, o vegetarianismo não pode ser entendido senão como uma dieta que exclui totalmente os “alimentos” de origem animal; segundo, assim sendo, a dieta vegetariana assim definida não é simplesmente uma “meta”, mas a dimensão dietética do veganismo, que é o único caminho coerente com a objeção moral que dá origem ao vegetarianismo e o ponto de partida para qualquer defensor dos animais.

A dieta e seu fundamento ético
A noção de que a dieta vegetariana é aquela que exclui somente restos de animais mortos é enganosa e incoerente. Segundo o discurso hegemônico, “vegetariano” deriva da raiz em latim “vegetus”, que significa “forte”, “vigoroso”. Assim, o fato de o “vegetariano” ter uma dieta à base de alimentos de origem vegetal seria apenas uma feliz coincidência. Na verdade, “vegetus” também é a raiz etimológica de “vegetal”, não havendo, portanto, como separar uma dieta “vegetariana” da sua base a partir de fontes vegetais.
A extensão do conceito de “vegetariano” às dietas que incluem alimentos que, embora de origem animal, não derivam diretamente da morte de um animal, só pode ter alguma justificativa na tradição histórica. Historicamente, tanto no Oriente como no Ocidente, os adeptos da dieta “vegetariana” abstinham-se apenas dos restos de animais mortos, mas admitiam o consumo do leite e, mais restritamente, dos ovos. Na tradição hindu, por exemplo, o ovo é equivalente à carne, na medida em que representa o embrião de um ser vivo. O leite, contudo, não só não implica a morte, como é símbolo de vida e comunhão – a mãe dá o leite ao seu filho, permitindo que este sobreviva e se desenvolva. Desse modo, na mitologia hindu, a vaca assume a força de uma divindade-mãe, que renova constantemente esse ciclo de vida e comunhão do ser humano.
Assim, chegamos ao primeiro ponto que pretendo salientar: ao analisarmos a existência de uma tradição vegetariana na história da humanidade, partindo das religiões orientais baseadas no princípio da não violência (ahimsa), até a difusão do vegetarianismo no Ocidente a partir do século XIX, não há como escapar da constatação de que todas elas se fundam a partir de uma convicção moral acerca da relação entre seres humanos e animais. Esse próprio substrato moral serviu como justificativa para admitir a inclusão de leite e, em alguns casos, ovos, na dieta (da mesma forma que admite cogumelos, por exemplo, que não são vegetais, mas fungos). E é justamente essa “emenda” no conceito que denuncia a limitação do seu fundamento ético original, como veremos mais adiante.
É fantasioso alegar que é possível separar a dieta vegetariana de um fundamento ético. Mesmo que de forma limitada e antropocêntrica, a objeção ética ao abate de animais esteve sempre na raiz da adoção do vegetarianismo, incluindo aqui as suas motivações espirituais. Apenas em tempos muito recentes, com o avanço dos conhecimentos sobre a nutrição, surgiu essa curiosa figura híbrida e amorfa do “vegetariano pela saúde”.
Essa figura não é apenas recente mas, eu diria, intencionalmente inventada. Na Europa do século XIX o limitado conhecimento sobre nutrição humana requeria, de fato, a preocupação de comprovar a viabilidade de uma dieta vegetariana para a saúde humana. O que é, de fato, totalmente diverso – na verdade, diametralmente oposto – à ideia de que o vegetarianismo é acima de tudo uma corrente dietética. Como pode o vegetarianismo ser antes uma razão de saúde, se até há poucas décadas ainda se levantavam fortes questionamentos sobre sua viabilidade e adequação à saúde humana?
A figura do “vegetariano pela saúde”, portanto, foi criada e instrumentalizada pelos grupos vegetarianos organizados – e aqui me refiro ao papel histórico das Sociedades Vegetarianas ocidentais, desde a primeira delas, fundada na Inglaterra em 1847 – tentando escamotear a motivação que inspira a maioria dos que aderem ao vegetarianismo, e nele persistem. Fantasiando o vegetarianismo de corrente dietética, tentavam assim diminuir a resistência ao debate e conquistar maior legitimidade perante o todo das sociedades.

Os limites da ética vegetariana tradicional
Afirmar a existência de uma tradição ética do vegetarianismo, é bom que se diga, não implica justificá-la. Nenhuma prática valida-se simplesmente pela tradição. Se uma tradição demonstra-se equivocada e limitada, ela deve ser abandonada ou transcendida. E é isso o que, de fato, está em debate: transcender a nossa visão tradicional da relação ser humano/animal não humano, inclusive a tradição do vegetarianismo. A ética vegetariana tradicional permanece refém do antropocentrismo e oferece uma falsa resposta aos dilemas morais da relação entre humanos e animais não humanos. Ela somente sobrevive pelo velamento do próprio dano que ela afirma combater: o abate.
É impossível domesticar e criar animais sem reduzi-los à condição de propriedade, de objeto. E é justamente isso que torna o animal vulnerável a todo tipo de violação dos seus interesses fundamentais, inclusive o interesse à vida. Portanto, qualquer uso de um animal é uma violação de todos os seus interesses fundamentais. O abate é apenas consequência de todo o processo anterior de objetificação. Ao consumir o leite e o ovo, estamos também consumindo a dor, o sangue e a morte dos animais de quem extraímos esses produtos, e das crias que deveriam ser beneficiárias deles. Tomar leite significa uma apropriar-se de uma vaca, forçá-la a procriar artificialmente, separá-la de sua cria, matar a cria e matar a própria vaca, assim como comer ovo significa reproduzir esse mesmo processo com a galinha e o pinto. Esse processo não é uma invenção moderna, embora a sociedade industrial tenha tornado a sua brutalidade intrínseca mais evidente, pois eliminou qualquer mediação mágica e mitológica na relação de exploração ser humano/animal, preservando apenas o seu interesse bruto, potencializando ao extremo toda a violência nele contida. A violência, contudo, está inserida na própria lógica da exploração animal e é inseparável desta.
O discurso pró-vegetarianismo tradicional, não obstante, crê que o único mal está na fase final do processo de exploração, o abate o que, naturalmente, é um absurdo tanto ético quanto lógico. Se os vegetarianos do século XIX estavam limitados pelo contexto histórico a um conhecimento rudimentar da nutrição humana e da ética, os avanços das duas matérias a partir do século XX não mais justificam a preservação dessa concepção retrógrada do vegetarianismo. Assim, ao definir e promover o vegetarianismo como uma dieta que exclui apenas os produtos da morte de um animal, os “vegetarianos” e organizações de promoção do “vegetarianismo” assim definidos estão legitimando diretamente a exploração e também o abate de animais ao qual nominalmente se opõem. São falsos defensores dos animais, falsos profetas. Nos dias de hoje, um indivíduo que assim procede não está sendo apenas incoerente, mas igualmente hipócrita. Não é mais possível, no mundo contemporâneo, ignorar, mascarar ou mitificar o dano que causamos aos animais quando os criamos, mesmo que não para consumi-los diretamente, mas para consumir seus subprodutos.

Vegetarianismo e protovegetarianismo
É pensando nisso que nós, da Sociedade Vegana, aqui no Brasil, pretendemos resgatar o sentido do “vegetarianismo” com o rigor tanto ético quanto etimológico que o conceito requer. O vegetarianismo é uma dieta que exclui todo e qualquer alimento de origem animal, não apenas aquele que derive da morte direta, mas também os demais, que derivam da exploração direta que inevitavelmente também os levará à morte.
Os vegetarianos das épocas anteriores, mesmo que bem intencionados, foram contidos pelas limitações históricas de suas épocas, a limitação de suas concepções éticas, e a limitação de seu conhecimento prático, que hoje está disponível. Por isso, defendemos que eles são “protovegetarianos”, isto é, indivíduos que, inspirados por uma objeção moral ao abate de animais, defenderam a adoção de uma dieta que excluísse apenas os frutos diretos desse abate, sem questionar a instituição da exploração animal e assim, contraditoriamente, legitimando não apenas a exploração, mas também o próprio abate. Eles foram pioneiros, abriram o debate, apontaram caminhos, mas não conseguiram, pelas limitações de seu tempo, oferecer uma solução coerente ao dilema ético que nos apresentaram.
Hoje, os “protovegetarianos”, contudo, são aqueles que ou permanecem na ignorância, ou recusam-se a dar o inevitável passo adiante, se queremos levar a sério o dilema ético que nos impõe a exploração animal. E, nesse processo, contam com a cumplicidade ativa das organizações de suposta promoção do vegetarianismo e bem-estar animal. Ao promover dietas que legitimam o uso de animais, como o “ovolactovegetarianismo” e normas de bem-estar para o uso de animais, essas organizações apenas perpetuam a violência que os seres humanos impõem aos animais não humanos. Nesse contexto, o protovegetarianismo e o bem-estarismo precisam ser enfrentados diretamente como uma falsa solução para o dilema ético da exploração animal.
E, embora do ponto de vista individual, a persistência do protovegetarianismo – uma dieta que ainda admite determinados alimentos de origem animal – possa ser vista como uma fase embrionária e transitória em direção ao vegetarianismo de fato – uma transição que muitos indivíduos jamais irão concluir –, do ponto de vista de um movimento de defesa dos animais, o protovegetarianismo não pode mais ser entendido nem mesmo como um meio para o qual o vegetarianismo é um fim.

Veganismo como meio
O próprio vegetarianismo, redefinido como uma dieta que exclui completamente alimentos de origem animal, baseado quase inteiramente em fontes vegetais, não é uma resposta suficiente para o dilema ético que o motiva. Foi a partir dessa constatação que Donald e Dorothy Watson, ativistas britânicos do século XX, conceberam, em 1944, o conceito de “veganismo”, e fundaram a primeira Sociedade Vegana. Por “veganismo”, eles definiram a prática de abster-se da contribuição direta e voluntária de todas as formas de exploração animal – não só a criação de animais para a produção de alimentos, mas também todas as outras formas de objetificação dos animais, incluindo os outros fins pelos quais animais são criados e reproduzidos, como a experimentação científica, e também a pesca e a caça.
Foi isso que eu quis dizer quando afirmei que “Um ‘defensor’ dos animais que não é vegano não só faz mal a si mesmo, mas igualmente aos animais e à causa”. Pois não se pode, honestamente, ser um defensor da causa animal e contribuir conscientemente para a exploração e objetificação dos animais não humanos.
Embora nos dias de hoje ser totalmente vegano seja virtualmente impossível, pois todos contribuímos de algum modo para a exploração animal, aqueles que acreditam no dever de respeitar os animais têm o dever de abdicar de toda forma consciente de exploração animal que estiver ao seu alcance. E o vegetarianismo, que é a dimensão dietética do veganismo, é também justamente aquela sobre a qual temos o maior controle no nosso cotidiano e, portanto, o ponto de partida para a construção individual do veganismo.
O próprio veganismo, por sua vez, embora seja uma construção cotidiana, é uma construção que não pode ser adiada e cujo aperfeiçoamento deve ser sempre buscado. Não pode mais ser visto como resultado da abnegação ou “estado da arte” da evolução ética pessoal. Vegetarianismo e veganismo são, ambos, não fins em si mesmos, e portanto “metas” a serem perseguidas ad eternum e pontos de chegada. São, isso sim, pontos de partida, a primeira meta daqueles que se pretendem defensores dos animais – muito mais importante do que participar de manifestações de rua, fazer panfletagens, assinar petições. Mais importantes do que promover debates, pois como é possível debater e argumentar com credibilidade e coerência em favor dos animais, se não praticamos em nós mesmos aquilo que defendemos no plano das ideias?

Conclusões
Historicamente, não há como separar o vegetarianismo do fundamento ético que o motiva. Também historicamente, esse fundamento mostrou-se limitado ao enfatizar apenas o sofrimento e o abate, sem considerar o uso, ou seja, a objetificação do animal. No mundo de hoje, porém, os avanços do conhecimento científico, bem como a evolução da filosofia da ética, tornam inevitáveis e inescapáveis a revisão e evolução tanto do conceito de vegetarianismo quanto de seu fundamento ético.
Essa fundamentação ética implica o reconhecimento de que os animais não humanos têm interesses fundamentais – a vida, a liberdade e a integridade – que são violados quando os usamos como objetos para fins humanos, interesses que devem ser respeitados. Tal reconhecimento, por sua vez, implica definir tais interesses como direitos que os animais possuem, por isso chamados de direitos animais. Não apenas o abate, mas toda forma de exploração animal, da qual o abate é uma mera extensão, representam violações desses direitos. Sendo assim, a abolição da exploração animal o único meio de realizar plenamente os direitos animais.
A partir desse aprofundamento da discussão ética e filosófica da questão animal, a coerência impõe não apenas a adoção de um conceito mais rigoroso – e etimologicamente mais preciso – de vegetarianismo, mas sua inserção no conceito mais amplo de veganismo, a partir do reconhecimento de que o vegetarianismo é, ele mesmo, uma resposta insuficiente para o dilema da exploração animal, que não existe nem é perpetuada apenas para os fins da alimentação humana.
Sendo assim, um movimento de defesa dos animais que mereça este nome deve abandonar definitivamente as falsas soluções que não confrontam diretamente o problema da exploração animal, ou seja: todas as dietas não vegetarianas, incluindo as protovegetarianas, e as políticas bem-estaristas de regulamentação que legitimam e perpetuam a exploração animal. Nosso papel, como defensores dos animais, é promover os direitos animais e o veganismo, do qual o vegetarianismo é a dimensão dietética.
Assim, os direitos animais devem ser definitivamente adotados como a base ética e filosófica do movimento em defesa dos animais, tendo a abolição como meta e o veganismo como sua dimensão prática. Desse modo, o veganismo não é um caminho incerto, ao qual nem todo defensor dos animais está vinculado. Tampouco é o ponto de chegada de uma trajetória de vida de busca do respeito pelos animais. Ele é o ponto de partida. Não é um fim em si mesmo, mas um meio para os fins da abolição e dos direitos animais.

Protovegetarianos

por George Guimarães

Faz algum tempo, comecei a perceber-me incomodado quando alguém declara orgulhar-se por ser “vegetariano”. Depois de avaliar se eu estaria com isso expressando um sintoma de intolerância, constatei que não se tratava de uma intolerância dirigida ao indivíduo, mas de um incômodo diante da incoerência implícita nesse suposto orgulho em declarar-se “vegetariano”, em especial no uso comum do termo, que atualmente abrange também aqueles que consomem ovos e laticínios.

No meu entender, ser vegano (excluir não somente os ovos e laticínios da alimentação, mas também todos os outros derivados de origem animal de todo o cotidiano) não é mais do que a obrigação moral de todos. Sendo apenas o mínimo a ser feito, o que há nisso para se orgulhar? O fato de uma pessoa não ser tão ignorante ou acomodada quanto a maioria que a rodeia não é motivo algum para orgulho. Dependendo do meio onde a pessoa está inserida, isso pode ser motivo para admirá-la por sua coragem, determinação e força de vontade, mas não algo de que ela própria possa se orgulhar. Afinal, ela está fazendo nada mais que sua obrigação, que é a de não explorar outros seres sencientes, livrando-os assim da miséria, escravidão e morte que lhes seriam impostas em troca de algum prazer ou conforto momentâneo e individual.

Mas se a pessoa eleva o seu veganismo um passo adiante, decidindo dedicar-se a levar a mensagem dos direitos animais a outras pessoas (tornando-se um ativista), a partir daí ela poderia considerar que está fazendo algo além da sua obrigação moral, apesar que uma outra ótica poderia chegar à conclusão de que o ativismo também seja nada mais do que a nossa obrigação moral.

O dilema diante da constatação da incoerência implícita no tal “orgulho vegetariano” não se aplica apenas aos veganos, mas também (e com maior gravidade) àqueles que exaltam a sua benevolência enquanto regozijam-se com produtos que derivam do mesmo montante (senão mais) de exploração animal quanto a carne. Refiro-me, naturalmente, a produtos como ovos e laticínios. Com uma pausa para reavaliar a minha tolerância (ou a possível ausência dela), compreendo que a passagem pela fase do consumo de alguns alimentos derivados de animais, ainda que não seja essencial, seja comumente necessária haja vista o grau de alienação que prevalece em nossa sociedade. Desse modo, uma fase de “descompressão” (o consumo de derivados animais) pode ser útil até que o indivíduo possa atingir a normalidade (veganismo). No entanto, não devemos deixar de considerar que a transição direta do carnismo para o veganismo também seja perfeitamente viável do ponto de vista fisiológico. O impedimento não está na fisiologia, mas sim no hábito.

Posso admirar o fato de o indivíduo ter despertado e dado início à revisão e desprendimento dos vícios, matrizes e comodismos que ainda mantêm a grande massa presa à ignorância e ao descaso, inconscientes, mas não isentos, da responsabilidade que cada um tem sobre a perpetuação ou a abolição da escravidão animal. Apesar de eu poder compreender que esse processo possa demandar um tempo até que a pessoa abandone todos os derivados animais, ainda assim não posso dizer que vejo isso como algo do que se orgulhar. Há os que passem rapidamente por essa fase de transição ou os que, ainda que não o façam rapidamente, galgam de maneira constante os degraus necessários e isso é admirável.

No entanto, seja por acharem que assim está bom ou seja por acharem que não são capazes, há aqueles que chegam ao “status” de terem abandonado o consumo de carnes de animais e a isso consideram a conquista final, como se a possibilidade do veganismo fosse reservada a alguns poucos escolhidos ou extraordinariamente desenvolvidos em sua compreensão sobre a moralidade. O fato é que por trás da “satisfação” com a sua classificação alimentar está um único motivo: o comodismo. Sim, o comodismo, uma vez que do ponto de vista fisiológico é possível abstermo-nos do consumo de produtos animais em sua totalidade. Se há algum apego a eles, seja esse apego trajado com a desculpa de que a sua condição social ou a sua rotina diária não permitem fazer a transição, o fato é que o apego existe. Mesmo que não haja um apego ao alimento em si, há um apego à tal rotina diária que supostamente impede a mudança. Ora, se a pessoa não muda a sua rotina, é porque isso traria consequências que gerariam algum desconforto, certo? Logo, a pessoa opta por manter o desconforto do animal que será explorado para que ela possa manter a rotina que considera ser a mais confortável para si mesma. Isso é comodismo.

Sendo o comodismo considerado pela maioria como um comportamento negativo, pergunto-me de onde vem a imensa incoerência de orgulhar-se de uma prática pautada pelo comodismo. Talvez o critério seja o de comparação, afinal, apesar de acomodadas, as pessoas que continuam a consumir convictamente alguns produtos derivados de animais são menos acomodadas do que a maioria da população que continua a consumir convictamente todos os produtos de origem animal. Ou, talvez, essa aceitação seja porque se instituiu que abandonar o consumo de carnes já seja algo suficientemente digno de admiração e orgulho, e por isso não seria preciso ir além. Conforme já expus, até mesmo o referido “além” (o abandono de todos os alimentos de origem animal da dieta) está bastante aquém do mínimo que todos deveriam praticar (o veganismo, aplicado a todo o cotidiano) e demasiadamente aquém do ideal a ser objetivado (o veganismo somado ao ativismo pelos direitos animais).

Portanto, se pretendemos auxiliar as pessoas em seu processo de desapego daquilo que as mantêm ligadas ao consumo dos produtos derivados de animais, devemos, antes de qualquer coisa, apontar a elas onde está a sua incoerência, pois isso as motivará a continuar seguindo adiante. Desapropriá-las dos louros indevidos não é dirigir a elas uma atitude de intolerância, mas sim estimulá-las para que sigam caminhando com convicção e coerência até que possam apropriar-se do orgulho ou, mais apropriadamente, da satisfação que almejam com a sua classificação dietética.

Nesse sentido, e vindo de encontro a solucionar o meu incômodo particular já relatado, novos termos estão sendo propostos para classificar aqueles que optam por deixar o consumo de alimentos de origem animal. Os termos que serão apresentados a seguir foram discutidos pelos membros da recém-fundada Sociedade Vegana, uma organização que teve parte da motivação para a sua criação na aparente confusão e mal-uso que vem sendo feito dos conceitos do vegetarianismo e do veganismo. Assim como em 1944 a Sociedade Vegana do Reino Unido surgiu para destacar os vegetarianos (para usar a definição da época) que haviam abandonado o consumo de ovos e laticínios, criando o termo “vegan”, de modo semelhante a Sociedade Vegana, fundada no Brasil em 2010, propõe reclassificar o conceito até então conhecido como vegetarianismo à sua verdadeira condição, que é a de protovegetarianismo.

O prefixo proto (do grego) designa aquilo que dá indício de ser, ou que inclina-se a ser, mas que ainda não é. São exemplos desse uso os termos protótipo e protozoário. São exemplos de um protovegetariano, os ovolactovegetarianos, lactovegetarianos, ovovegetarianos, apivegetarianos ou qualquer combinação entre os prefixos que designam o alimento de origem animal que continua agregado ao que seria a sua dieta vegetariana (mas que não é, justamente por trazer esses alimentos animais agregados). Protovegetarianos são, portanto, aqueles que desejam ser vegetarianos (alimentar-se exclusivamente de alimentos vegetais), mas ainda não chegaram lá, pois ainda se mantêm presos ao consumo de alguns produtos de origem animal.

Já o termo vegetariano aplica-se àquele indivíduo que baseia a sua alimentação exclusivamente em alimentos de origem vegetal e mineral. O termo vegano aplica-se ao indivíduo que, além de adotar uma dieta vegetariana (eliminando todos os produtos de origem animal da sua alimentação), também deixa de consumir os produtos da exploração animal em outros aspectos do seu modo de vida, como por exemplo nos cuidados com a saúde e nos esportes e entretenimento dos quais escolhe participar.

Naturalmente, os termos não se aplicam somente ao indivíduo, mas também ao alimento, ao produto, ao estabelecimento, etc. Para citar alguns exemplos seguindo a nova terminologia, para designar-se vegetariano, um restaurante deve servir apenas alimentos de origem vegetal, mas não precisa ter um cuidado especial com a origem dos produtos de limpeza que utiliza. Já um restaurante vegano está coerente com o termo quando vai além dos alimentos que serve para cuidar também de outros aspectos relacionados à sua operação e que possam envolver a utilização de produtos derivados da exploração animal. Do mesmo modo, uma entidade que se intitula vegetariana não pode ser permissiva com o consumo de alimentos de origem animal. A designação correta para uma entidade que eventualmente seja condescendente com o consumo de produtos de origem animal é protovegetariana. Para citar outro exemplo, um livro de receitas vegetarianas não faz jus ao nome se nele houver receitas com ovos e laticínios. Se for um livro com receitas que mantêm esses produtos animais, a classificação correta é de um livro de receitas protovegetarianas (para usar um termo genérico) ou um livro de receitas ovolactoapivegetarianas ou composição semelhante para o caso de desejar ser mais específico sobre os ingredientes que utiliza ou não utiliza. No entanto, passa a ser incorreto usar o título “receitas vegetarianas” para designar uma publicação que inclua ingredientes animais em suas receitas.

Nesse momento de transição, um pequeno glossário relacionando os termos novos aos termos anteriores pode ser útil:

Protovegetariano – indivíduo que mantém algum derivado animal agregado à sua dieta. Podem ser uma combinação dos prefixos ovo-, lacto- e api- (exemplo: ovolactovegetariano). Anteriormente conhecido como vegetariano.

Vegetariano – indivíduo que consome somente alimentos de origem vegetal e mineral. Anteriormente conhecido como vegetariano estrito, o que hoje vemos ser uma redundância nos termos.

Vegano – indivíduo que adota uma dieta vegetariana (isenta de qualquer alimento de origem animal) e também abole os produtos de origem animal de outros aspectos do seu modo de vida.

É natural que haja alguma confusão no uso desses termos durante os primeiros anos de transição. Será necessário trabalhar o seu uso não apenas na comunicação entre vegetarianos e protovegetarianos, mas também junto à imprensa e à população. Ainda que essa mudança possa trazer alguma confusão no início, estaremos pavimentando o caminho para uma comunicação mais clara e isenta das falhas que hoje mantêm o comodismo oculto sob os olhos do próprio indivíduo que se mantém apegado a ele, afagando com isso o providencial incômodo que, se não fosse escondido, poderia motivá-lo a seguir em sua caminhada rumo à abolição de todas as formas de exploração animal do seu modo de vida.

George Guimarães, nutricionista especializado em dietas vegetarianas, membro fundador da Sociedade Vegana
Fonte: Anda