dezembro 18, 2011

Hominídeos vegetarianos

Desenvolvimento dos primeiros primatas

Há cerca de 60 milhões de anos desenvolveram‑se os primeiros primatas*, mamíferos dos quais todos descendemos, e com eles partilhamos muitas das capacidades que hoje possuímos. A evolução da garra para a mão foi muito importante do ponto de vista da capacidade de utilização de objectos como ferramentas (nomeadamente pedras e paus), ao mesmo tempo que a localização dos olhos nas zonas laterais do rosto ia sendo gradualmente substituída pela zona frontal, o que possibilitou que a nossa visão se tornasse estereoscópica, ou seja, que passássemos a ver em relevo as imagens planas. A sobreposição dos campos visuais daí resultante deu origem à visão em profundidade, vital para a identificação de predadores à distância.

A flexibilidade e a adaptação às condições em constante mutação são duas das condições para que uma espécie sobreviva, seja bem‑sucedida e saiba aproveitar as vantagens do inesperado. Todos os seres vivos que dependam de um habitat específico para sobreviverem estão condenados à extinção se esse habitat for destruído. A chave do sucesso não está só na flexibilidade mas também na inconstância, a arte de confundir os predadores. O lémur, um dos nossos primeiros antecessores primatas cujo habitat tem permanecido quase inalterado desde há 60 milhões de anos, permanecia nas árvores a maior parte do tempo e a sua dieta consistia em folhas, frutos secos de casca dura, bagas, frutas e caules comestíveis.
Vinte milhões de anos depois dos os lémures, chegaram os antropóides, primatas mais evoluídos que incluem os macacos, os símios e os humanos— outro grupo de vegetarianos. Há 5 a 25 milhões de anos atrás este grupo diversificava e colonizava África, a Eurásia e as Américas tropicais usando as pontes naturais entre continentes que existiam na época. Certamente percorreram grandes distâncias, de climas frios a moderados e quentes e pensa‑se que os climas nórdicos mais frios ajudaram ao desenvolvimento dos antropóides, levando‑os a consumirem mais cascas de árvores, câmbio vascular (mucilagem que cresce no interior da casca das árvores rica em proteínas e hidratos de carbono) e folhas de plantas perenes. Eram todos vegetarianos, mas a dieta começava a ser mais sortida com a crescente variedade de alimentos e sabemos que diversidade em abundância significa mais inteligência.
Há cerca de 18 milhões de anos surgiram os hominídeos**, símios sem cauda e com cérebros e corpos maiores do que os dos macacos que se desenvolveram em África; do grupo fazia parte um símio denominado Proconsul, por vezes chamado “o papá de todos nós”. Pensa‑se que partilhamos este antecessor com o gorila, outro famoso vegetariano e estudos de ADN demonstram a nossa relação próxima com o gorila e o chimpanzé e que descendemos de um antecessor comum com cerca de 5 a 6 milhões de anos. Através do estudo de maxilares fossilizados, sabemos que estes primatas eram herbívoros e que se alimentavam de frutos secos de casca dura, bagas, fruta e câmbio vascular (conhecido hoje em dia como olmo e consumido por alguns de nós como suplemento alimentar na convalescença). Com pequenas idas ao solo, conseguir‑se‑iam ainda facilmente sementes, caules, bolbos, raízes e até líquenes em pedras húmidas e algas dos lagos, uma mistura é vital para o desenvolvimento do sistema nervoso.
Alguns críticos defendem que os nossos antecessores primatas não seriam completamente herbívoros pois comeriam insectos e até caçariam mamíferos bebés ou pequenos macacos, tal como hoje fazem em liberdade. Talvez fosse verdade, mas a quantidade não foi suficiente para provocar mudanças na dentição: os dentes caninos são pequenos e os molares apresentam uma superfície ampla de moagem com uma camada espessa de esmalte, o que faz dos seus maxilares um poderoso instrumento de esmagar, moer e mastigar, destinado a lidar com vegetação. O seu gosto por insectos não os levou a experimentar outras pequenas criaturas, tais como sapos e lagartos.
Quanto à caça ao pequeno macaco colobo*** ou a crias de javali, tal como se vê em documentários de David Attenborough, esta pesquisa iniciou‑se com Jane Goodall: o seu grupo de chimpanzés foi observado durante um período de tempo que permitiu aferir dos números exactos de quantidade de carne consumida e de animais mortos. Num período de 10 anos, os cerca de 50 chimpanzés mataram e comeram cerca de 95 mamíferos pequenos: crias de javali, de gazela‑pintada (também denominado antílope‑pongo ou golungo) e de babuínos com pesos de cerca de 4,5 kg cada, o que dá uma média diária de 2,4 gramas— o peso aproximado de uma ervilha— por indivíduo. Além disso, as pequenas vítimas foram encontradas acidentalmente sem haver planos para caçar nem matar.
De todos os primatas vivos, os humanos são os únicos que comem animais de grande porte, sendo quase todos os restantes herbívoros. A nossa origem está nesta mistura genética de grandes grupos de criaturas pacíficas e amigáveis que subsistem alimentando‑se de ervas, folhas, frutos secos de casca dura, bagas, raízes e frutas. Não há dúvida que o nosso metabolismo construído ao longo de vários milhões de anos se sustém melhor por uma dieta vegana e só depois vegetariana, por esta ordem.
Há 3 milhões e meio de anos surgiu o Australopithecus Afarensis, apelidado Lucy. Era de estatura pequena, deambulava pela planície africana e pela floresta, vivia perto da água e era também herbívoro. Existiam vários tipos de Australopithecus, incluindo o Robustos, estigmatizado como assassino e como fonte dos nossos instintos agressivos, mas na realidade também ele era vegetariano, usando apenas ossos de mamíferos para desenterrar raízes e bolbos; a descoberta destes ossos ao lado dos do próprio primata, levou os antropólogos a pensar que tinham encontrado o primeiro caçador: enganaram‑se por um milhão de anos.


Quando começaram os nossos antepassados a comer carne?
Quando se iniciou o consumo de carne? Podemos datar a caça a partir de ferramentas usadas para matar, mas antes delas já existiam algumas muito básicas para cortar, raspar e cavar que foram encontradas junto dos restos mortais do Homo Habilis, que viveu há cerca de 1 milhão e meio a 2 milhões de anos atrás. Os antropólogos consideram provável que o Homo Habilis obtivesse a sua carne através da caça a felinos, mas tal como muito do que se diz acerca da evolução dos humanos, é apenas especulação.

A caça começou há cerca de um milhão e meio de anos com a chegada do Homo Erectus que viveu até há 200 mil anos. Os antropólogos de carnívoros dizem‑­nos isto como se a partir daí o Homo Erectus apenas comesse carne crua e mais nada e foi até sugerido que o desenvolvimento do nosso cérebro só teria começado com o consumo de carnes vermelhas. Se houvesse correlação entre o consumo de carnes vermelhas e o crescimento de células cerebrais, então os felinos teriam os maiores cérebros e seriam hoje a espécie dominante. Há outras razões para o aumento do volume cerebral.
Matar animais selvagens não é uma tarefa fácil e se os primeiros humanos dependessem apenas de carne, passariam fome a maior parte do tempo; por isso a maior parte da dieta consistia no que sempre tinha consistido: plantas silvestres frescas e uma porção, sem dúvida, seca e armazenada. Desta experiência deve ter nascido um grande conhecimento enciclopédico transmitido de geração em geração: as mulheres e crianças eram quem procurava e juntava ervas, flores e sementes, reconhecendo os seus efeitos no corpo humano. Hoje em dia, as tribos ameríndias das bacias do Amazonas e Orinoco têm um profundo conhecimento das propriedades das plantas da floresta tropical e os botânicos aprendem muito com elas. Esta armazenagem de grandes quantidades de informação na nossa Pré-História exigiria uma vasta inteligência.
Para que as células cerebrais cresçam, é necessário um equilíbrio entre dois grupos de ácidos gordos neurológicos: ómega 3 e ómega 6, sendo esta a combinação equilibrada que promove o crescimento do córtex cerebral, o lobo frontal onde está localizado o intelecto e o raciocínio. Os ácidos gordos ómega 6 encontram-se em arbustos, árvores e ervas e ainda hoje em África existem mais de 200 plantas silvestres com sementes e frutos secos ricos naqueles ácidos; por sua vez, o ómega 3 está presente nas folhas e noutras partes verdes das plantas, bem como no fitoplâncton e nas algas.
Convém dizer que também a carne contém ácidos gordos ómega 6 mas as células cerebrais não podem ser estimuladas sem uma quantidade igual de ómega 3, razão pela qual os carnívoros não podem ter uma inteligência superior através do consumo de grandes quantidades de apenas carne. De igual forma, a flora e a fauna aquáticas são ricas em ómegas 3, pelo que a fonte mais rica de nutrientes para os primeiros hominídeos e humanos teria estado em terra e em estuários fluviais. O desenvolvimento cerebral terá ocorrido não com o consumo de peixe nem carne, mas simplesmente através do consumo de uma grande variedade de alimentos vegetais. Nas zonas costeiras, de certeza que a dieta incluía plantas do mar.
Portanto, o consumo de carne teve início somente há cerca de um milhão e meio de anos, o que comparado com uma pessoa de 80 anos, significa que só nos últimos 15 consumiu carne; ou seja, durante 65 anos fomos vegetarianos. Isto tem implicações importantes na nossa saúde pois as investigações já demonstraram que uma dieta herbívora é de longe a mais saudável de todas e talvez uma que inclua apenas vegetais e frutas da época crus (crudivorismo) seja a mais bem conseguida de todas por ser tão semelhante à dieta da nossa evolução. Não se trata de negar que os seres humanos se tornaram omnívoros, pois só através da adaptação a diferentes fontes alimentares puderam colonizar o mundo, mas a verdade é que se comia muito pouca carne em comparação com o consumo actual. A caça tomou proporções maiores quando as mudanças climáticas (grandes eras glaciares) destruíram as fontes alimentares dos climas nórdicos. No entanto, em termos evolucionistas este é um período de tempo muito curto e a prova é que os nossos corpos não se adaptaram totalmente à mudança. A caça também alterou a nossa relação com os animais, mas a grande modificação nessa relação ocorreu quando o caçador‑recolector se transformou no criador de gado, quando as tribos nómadas se sedentarizaram e domesticaram animais e uma mudança ainda maior ocorreu quando se iniciou a criação intensiva de animais.
Os Índios Americanos acreditam que todas as coisas têm espírito: o vento, as árvores, a chuva, a neve, as aves e os mamíferos e quando iam caçar (a maioria das tribos não caçava, cultivava) tiravam à natureza apenas o que consideravam consumível e não arriscavam pôr em risco a sobrevivência de nenhuma espécie. Rezavam também pelo espírito do animal que matavam, demonstrando respeito pela sua essência, uma atitude tristemente inexistente de todo nos humanos modernos. Talvez os primeiros humanos tivessem esta atitude mais próxima dos animais que caçavam, mais próxima dos mistérios da vida, morte e renascimento do mundo natural.
O caçador encontrava‑se perante o selvagem e o indomado enquanto que o criador de gado já tinha em parte domesticado os animais ao seu cuidado. O criador de gado é dono do animal, controla a sua vida e morte— domina‑o e aqui começa o especismo. Só com o início da domesticação é que o Homo Sapiens começou a acreditar que era o mamífero dominante, livre para explorar todas as outras criaturas.
Contudo, durante grande parte da nossa História, a carne foi sempre prerrogativa dos deuses e dos poderosos enquanto que a maioria das pessoas só a comia em dias de festivais religiosos (três ou quatro anuais). Em 3500 a. C. muitas pessoas desdenhavam da carne e o grande pensador e matemático Pitágoras era uma delas. A maioria reverenciava‑o, mas escarnecia dos seus seguidores e fazia deles vilões. Nada muda! Então por que é que a abstinência da carne foi ridicularizada ao longo da História? Desde o início que a carne significava poder, a riqueza era medida em cabeças de gado e o heroísmo calculado pela quantidade de carne se conseguia ingerir (os homens robustos tinham fama de comer um boi de uma assentada). Por sua vez, a riqueza significava poder de direcção e controlo, bem como influência na comunidade. Os pobres comiam carne duas vezes por ano, talvez na Páscoa e no Natal, e quanto mais se comia, mais se mostrava a toda a gente o sucesso que se tinha: a carne era e ainda é o equivalente gustativo do casaco de pele de vison (marta).
Para aqueles que acreditam que é assim que se mede o status, é particularmente aborrecido constatar que para um pequeno grupo de pessoas este símbolo não vale nada, é inteiramente rejeitado e mesmo desprezado. Não é de admirar que os vegetarianos sejam levados a mal por se recusarem a acreditar na doutrina da maioria, na fé do status quo. Mas os vegetarianos não são apenas levados a mal, são abominados, pois fazem com que os consumidores de carne se sintam culpados e toda a gente detesta sentir‑se culpada.

Texto de autoria de Colin Spencer.
Colin Spencer é romancista, dramaturgo, autor de livros de culinária e tem uma coluna acerca de alimentação no jornal The Guardian.
O seu livro mais recente, The Heretic`s Feast – a History of Vegetarianism, com abundante pesquisa, apresenta uma perspectiva pormenorizada do vegetarianismo ao longo dos tempos. É também autor de muitos best‑sellers de culinária, tais como Cordon Vert e The New Vegetarian.


Referência:
http://www.viva.org.uk/guides/fruitsofthepast.htm
Traduzido e adaptado de Fruits of the Past publicado pelo Viva!, grupo vegetariano do Reino Unido — http://www.viva.org.uk

Fonte: Centro Vegetariano

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