outubro 04, 2010

Vegetarianos fazem mal ao meio ambiente

Salvar o planeta não depende do tipo da dieta, mas dos meios de produção
Donal Murphy-Bokern*
Nik Neves
Algumas discussões sobre meio ambiente ainda estão presas a conceitos sem fundamento que, de tanto serem repetidos, passam por verdade. O caso da alimentação vegetariana é um deles. Sempre imaginamos que uma pessoa que não se alimenta de carne é mais amiga da natureza do que os carnívoros. Acontece que um estudo realizado na Universidade Cranfield, na Inglaterra, com apoio do grupo ambientalista WWF, comprovou que, se todos os cidadãos do país deixassem de comer carne hoje, o ecossistema entraria em colapso. 

Um vegetariano substitui os alimentos de origem animal por soja e lentilha, por exemplo. A Inglaterra, especificamente, importa boa parte desses produtos. Se precisasse plantá-los em seu território, o espaço dedicado à agricultura teria que aumentar muito — mesmo levando em conta a redução da área dedicada à plantação de grãos para alimentar animais de abate. Colocando na ponta do lápis, o impacto dessa mudança seria maior do que os atuais efeitos negativos dos pastos — e isso inclui a emissão de gás metano provocada pela flatulência dos animais. Além disso, os substitutos da carne passam por um processo industrial que consome uma grande quantidade de energia. A fabricação de proteína de soja, por exemplo, consome mais energia do que a transformação de carne bovina em hambúrguer, o que significa mais carvão queimado nas usinas. Ou seja: tofu não é mais verde do que um prato de churrasco. 

Claro que os pastos e abatedouros têm grande impacto. Existem no mundo 1,2 bilhão de cabeças de gado, uma quantidade absurda, que jamais haveria se nós não as criássemos para consumo. Reduzir essa quantidade de animais faria com que ocupássemos menos terras com pastos e plantação de grãos. O importante, portanto, é encontrar substitutos sustentáveis para a carne. Comer mais massas já teria algum efeito. Trocar a carne vermelha pela branca também é útil (frangos ocupam menos espaço, comem menos e emitem menos gases que vacas). Aumentar a ingestão de vegetais frescos causaria um resultado ainda melhor. Mas pesquisas nos países desenvolvidos indicam que, do total de vegetarianos, menos de 20% se limita a comer apenas folhas. 

Nik Neves
Hoje, cerca de um quarto da população mundial tem uma dieta predominantemente vegetariana — na Inglaterra, são 3,7 milhões de pessoas. De todos os químicos poluentes que o país lança na atmosfera a cada ano, 19% são gerados ao longo da cadeia de produção de alimentos. A questão é: não adianta discutir mudanças na dieta para resolver esse problema. Esse é um falso dilema. Importante mesmo é investir em tecnologia para reduzir a emissão ao longo do processo produtivo, seja de carne ou de proteína de soja. Temos que investir em maneiras de plantar mais em menores espaços e melhorar técnicas de irrigação. Tudo isso é mais importante para o meio ambiente que a dieta do consumidor final. 
* Donal Murphy-Bokern é pesquisador de políticas agrícolas, professor visitante da universidade de cranfield, foi consultor dos ministérios da agricultura da alemanha e da inglaterra e é um dos autores do estudo citado neste artigo.


Fonte:

Sem comentários: