julho 13, 2010

SEGUNDA SEM CARNE!

Campanha ganha o mundo com uma proposta que é boa para a nossa saúde, para os animais e o planeta. Saiba como aderir
Luciana Morais - luciana@souecologico.com
Thiago Oliveira: Uma opção madura e amiga do planeta.
Foto: Fabiano Pinto
Sabe o que o belo-horizontino Thiago Oliveira, o ex-Beatle inglês Paul McCartney e a cantora carioca Marisa Monte têm em comum? Eles apoiam a redução do consumo de carne no Brasil e no mundo. O motor desse movimento é a ‘Campanha Segunda Sem Carne’, um convite global para que as pessoas, empresas e governos deixem fora de seus pratos e bandejões, somente neste dia da semana, a suculenta picanha, o peito de frango grelhadinho e até aquele irresistível peixe ensopado, em benefício da saúde humana, dos animais e da preservação do planeta. Vale parar, refletir e agir. Afinal, para se produzir um quilo de carne são gastos pelo menos sete quilos de grãos para alimentar animais destinados ao abate e, em média, 15 mil litros de água.


A indústria da carne é considerada mais impactante ao meio ambiente que segmentos como o transporte e responde por boa parte das emissões de gases de efeito estufa, que contribuem para o aquecimento global.  Seu crescimento está diretamente ligado ao desmatamento, à perda de biodiversidade e à pressão sobre ecossistemas inteiros, como a Amazônia. Segundo estimativas, os rebanhos bovinos mundiais emitem mais de 20% de todo o metano – gás 20 vezes mais poluente que o CO2 – que chega à atmosfera.

E mais: quase 80% das queimadas feitas na Amazônia se destinam a abertura de pastagens para o gado que vai virar bife nas mesas brasileiras e estrangeiras. Isso sem falar que, atualmente, mais da metade da safra mundial de alimentos é destinada à produção de ração para alimentar animais para abate. Segundo dados da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), a criação de gado responde por 40% do valor total da produção agropecuária mundial. O Brasil detém 7% da produção global de carne.

Diante de tantos dados, a iniciativa de não comer carne uma única vez na semana pode até parecer simples. Mas se for adotada em grande escala tem, com certeza, o poder de mudar a realidade planetária para muito melhor. Acreditando nisso, mas sem radicalismo, a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB) está levando a ‘Campanha Segunda Sem Carne’ a várias partes do Brasil. O lançamento oficial ocorreu em outubro do ano passado, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. A presidente da entidade, Marly Winckler, explica que a campanha tem forte vertente ambiental, além é claro de uma aura pop conseguida graças à adesão pública de estrelas internacionais, como o ex-Beatle Paul MacCartney, as atrizes Gwyneth Paltrow e Brigitte Bardot, e também de figuras de renome nacional, como os cantores Gilberto Gil e Marisa Monte, a modelo Ellen Jabour e o apresentador de TV João Gordo.

Qualquer pessoa ou empresa pode aderir. A campanha já existe há vários anos nos Estados Unidos, mas ganhou visibilidade mundial com o movimento liderado pela prefeitura de Gent, na Bélgica. Ano passado, Paul McCartney lançou a iniciativa em Londres e, simultaneamente, abraçamos a ideia aqui, com o apoio da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente da Prefeitura de SP. Queremos que as pessoas descubram e experimentem novos sabores e reflitam sobre os grandes prejuízos causados pela alimentação centrada na carne. Não se trata apenas de uma questão de sabor. Paladar a gente muda, educa. Precisamos deixar para trás a tradicional cultura baseada na carne, que ainda predomina no Brasil, e acarreta prejuízos à nossa saúde, aos animais e ao meio ambiente”, afirma.

O movimento também já foi oficializado em Curitiba e o mesmo deve ocorrer em Belo Horizonte, onde o ex-secretário municipal de Meio Ambiente, Ronaldo Vasconcellos, apoiou publicamente a campanha. “Estamos nos articulando para fazer o lançamento oficial aí em BH”, confirma Marly, que já está elaborando o calendário de atividades da SVB para o segundo semestre. A ideia é promover uma grande mobilização, em outubro, quando se comemora a Semana Mundial do Vegetarianismo.


ADESÃO GLOBAL

No cenário internacional, o lobby artístico em torno da campanha ganha mais e mais adeptos. Vegetariano há anos, Paul McCartney não só aderiu à ‘Segunda Sem Carne’ como mobilizou as filhas Stella e Mary. Convocou também várias personalidades, como os atores Kevin Spacey e Woody Harrelson (o radioamador pirata de Yellowstone Park, em ‘2012’, famoso por distribuir refeições sem carne nos bastidores dos filmes em que atua) e o músico Chris Martin, vocalista da badalada banda Coldplay. Em dezembro, discursando no Parlamento Europeu, em Bruxelas, Paul lembrou que a produção de um único hambúrguer consome a mesma quantidade de água que um banho de quatro horas. Em cidades como Gent e Baltimore, a carne já foi retirada do cardápio dos refeitórios das escolas uma vez na semana.

Veterana na defesa dos animais, a atriz Brigitte Bardot enviou carta ao presidente francês Nicolas Sarkozy, pedindo a criação de um dia sem carne em todos os estabelecimentos públicos e convocou as empresas a fazerem o mesmo. “Para além das questões ambientais e humanitárias, recusar o consumo de carne é também o melhor meio de protestar contra a barbárie que ocorre na criação, transporte e abate de milhares de animais sacrificados e consumidos no mundo inteiro.”


POR CONVICÇÃO

O estudante Thiago Oliveira Soares faz muito mais do que ‘pede’ a campanha. Tem 20 anos e desde os 14 é vegetariano. Estudante de Design Gráfico no UNI-BH, ele diz que nunca ‘fez muita questão de carne’ até que, um dia, decidiu parar de vez de comer. O incentivo veio de documentários a que assistiu e também de uma convicção. “Adoro animais e odeio violência”, diz enfático. Em casa, o prato dele é preparado à parte, porque o restante da família é fanático por carne. “No começo meus amigos me zoavam, mas hoje entendem e respeitam. Nas festas, até compram comida e tira-gostos sem carne”, conta o rapaz, que é apaixonado por motocross. Quando resolve se arriscar na cozinha, Thiago preparara a ‘picanha’ do seu cardápio: macarronada com carne de soja comprada no Mercado Central, sempre com molhos variados.

A aposta em boas receitas também é seguida pela SVB para levar adiante a Campanha e literalmente fisgar novos adeptos pela boca. Todas as palestras e eventos promovidos pela entidade incluem demonstrações culinárias destinadas a incentivar as pessoas a descobrirem novos sabores e, com isso, derrubar o velho mito de que vegetariano só come alface. “Ensinamos receitas e convidamos chefs de renome, que preparam pratos para degustação e dão dicas ao público. Foi assim no 3º Salão Vegetariano, realizado mês passado, em São Paulo. Durante quatro dias, 20 chefs prepararam comida sem proteína animal para os visitantes. Foi um sucesso”, conta Marly que mora em Florianópolis e, no dia desta entrevista, estava na casa de um amigo, em SP, onde esperavam por ela à mesa estrogonofe de legumes, arroz integral e salada.

Vegetariana desde 1983, adepta do veganismo há 15 anos,  Marly, que é socióloga e autora dos livros “Vegetarianismo – Elementos para uma Conversa Sobre” e “Fundamentos do Vegetarianismo”, acredita que o brasileiro ainda consome menos verduras e legumes do que deveria por desinformação e conformismo, mas principalmente porque é bombardeado diuturnamente por propagandas da indústria da carne.

 Quem está entre os patrocinadores nacionais da Copa do Mundo (Seara e McDonald’s) e sempre anuncia na TV em horário nobre? É a indústria da carne, em grande parte. Isso reflete diretamente no consumo. Não é um hábito inocente. É moldado e precisa mudar. A dieta padrão norte-americana – recheada de carne, gordura e açúcar – se instalou no Brasil. É a junk food, a comida lixo. Hoje, já estamos pagando um preço alto por isso, tanto em termos de saúde pública, com a sobrecarga dos serviços de assistência médica, quanto de impacto ambiental. O futuro é esse: deixar de lado a farmácia e redescobrir a horta”, convida Marly.

Pensando no mundo que queremos – mais digno e sustentável para todos –, aderir ao convite da campanha não há-de ser nenhum sacrifício. Ao contrário, uma atitude cidadã e ecológica capaz de dar uma esverdeada naquele velho ditado, que ficará mais ou menos assim: “Plante um mar de árvores, leia uma montanha de livros, tenha (só) um filho e, é claro, coma menos carne!” 
Aqui na redação da Revista ECOLÓGICO nós já aderimos e o almoço da Denise continua perfeito. Experimente e bom apetite!
VOCÊ SABIA?
FLORESTA SOB PATAS

Os criadores de gado na Amazônia brasileira são hoje os maiores responsáveis pelo desmatamento no mundo, respondendo por um em cada oito hectares desmatados globalmente. Segundo o Greenpeace, a expansão de gado na Amazônia ameaça a meta do governo brasileiro de reduzir em 72% o desmatamento no país até 2018. Mais de 60% dos animais criados para virar comida são mantidos em granjas industriais, onde ganham peso rapidamente por meio de uma alimentação não-saudável e com alto teor proteico. Os animais também vivem amontoados, estressados e, na maioria dos casos, em condições higiênicas insalubres. Outro impacto claro é em relação à água, já que a produção de carne consome e contamina grandes quantidades desse recurso cada dia mais vital.

ELA NÃO É A ÚNICA
A carne fornece proteínas, vitaminas, principalmente do complexo B e minerais. Especialmente rica em vitamina B12, ferro e zinco, não é a única fonte desses nutrientes. Alimentos de origem animal, como carnes de outras espécies, ovos, frutos do mar, leite e derivados, exceto manteiga, são excelentes fontes de proteínas. Segundo a vice-presidente do Conselho Regional de Nutricionistas da 9ª Região/MG, Beatriz Carvalho, diversos vegetais também fornecem proteínas, principalmente os cereais (arroz, milho, trigo e aveia) e leguminosas (feijão, soja e lentilhas). “Todas as vitaminas e minerais de que precisamos também estão presentes nos diversos alimentos vegetais que ainda são fonte de fibras. Podemos ter uma alimentação sem carne ou em quantidades reduzidas, plenamente adequada, saudável e saborosa. Biologicamente não precisamos de alimentos específicos, mas sim de nutrientes – carboidratos, proteínas, gorduras, minerais, vitaminas e fibras, além de água – em proporção e quantidade adequadas a cada pessoa”, explica.

Beatriz lembra que vários aspectos devem ser considerados quando escolhemos o que comer. Os alimentos, ensina, devem ser seguros, sem contaminantes, resíduos de agrotóxicos e pesticidas. “O Brasil é o maior consumidor desses venenos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem alertado sobre quantidade e variedade de agrotóxicos presentes nos alimentos vegetais muito além do permitido. Além de afetar a saúde, esses venenos permanecem no solo e na água por muito tempo, causando sérios prejuízos. Precisamos de alimentos diversificados, o menos processados possível e, de preferência, produzidos na região, de modo saudável e sustentável. Resgatar a alimentação como um momento de prazer e de harmonia com as pessoas que convivemos e com a natureza da qual fazemos parte. E é fundamental que o direito de todos a essa alimentação saudável e adequada seja garantido agora e às futuras gerações”, conclui.

FIQUE POR DENTRO:
VEGETARIANO:
Não se alimenta de carnes de qualquer tipo (boi, frango, peixe, carneiro e avestruz). Nem escargot, frutos do mar e produtos que contenham esses alimentos. Também não consome derivados que impliquem na morte de um animal, como bacon, presunto, salsicha, gelatina, etc. Se uma pessoa come algum tipo de carne, mesmo que ocasionalmente, ela não é vegetariana. Quem não come proteína animal tem 50% menos chance de desenvolver diabetes, 30% menos cardiopatias e também de determinados tipos de cânceres, como o de cólon.

VEGANO:
Vai além, procura não consumir nenhum ingrediente de origem animal não só na alimentação, mas também no vestuário, como roupas de couro, e na compra de produtos de higiene, limpeza etc.

PARA SABER MAIS: www.svb.org.br

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