junho 04, 2010

Selo garante que alimento é orgânico

por Nadja Sampaio

Como saber se um alimento é mesmo orgânico? Porque é pequeno respondem uns. Porque a embalagem diz, afirmam outros. O consumidor sabe que o alimento orgânico não tem agrotóxicos nem adubo químico, mas o que ele desconhece é que a maneira de ter certeza de que o produto é orgânico é verificar se tem o selo de uma certificadora. O produtor só pode dizer que seu produto é orgânico se a produção for fiscalizada. Hoje, no Brasil, existem 17 certificadoras, que podem ser conhecidas no site www.planetaorganico.com.br 

Dulcinéia Pereira Lacerda conhece e prefere os orgânicos. Ela trabalha para a Prefeitura do Rio, cozinhando para crianças e idosos.
- Prefiro os produtos orgânicos porque são mais saborosos e duram mais. Mas, para minha casa nem sempre compro porque o preço é mais alto. Hoje, encontrei o preço da alface e da rúcula orgânicas igual ao da alface normal, então, estou levando os orgânicos.
Em 1985 havia 15 produtores, hoje são 331
Mônica Bicudo, presidente da certificadora Associação dos Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro (Abio), diz que Dulcinéia tem razão: os produtos duram mais. Ela observa que quando a agricultura orgânica começou os produtos realmente eram menores, mas hoje existem técnicas que permitem que os produtos cresçam sem que se use nutriente químico:
- Em 1985 havia um grupo de 15 produtores que insistiam na agricultura orgânica e eram considerados malucos. Hoje, são 331 sócios em todo o Estado do Rio.
Outra crítica comum aos produtos orgânicos era de que havia pouca variedade. Mônica explica que hoje produzimos praticamente tudo no Estado do Rio:
- Se a demanda existe, a produção aumenta e o preço cai. Esta é a chave do crescimento.
Para garantir a demanda, a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Estado do Rio (Pesagro) está trabalhando num programa específico para orgânicos, que começou no início deste ano. A diretora-técnica da Pesagro, Maria Luiza de Araújo, gerente do programa Moeda Verde - Cultivar Orgânico, diz que a primeira idéia a ser implantada será a colocação de cinco ônibus de Sacolão Volante apenas com orgânicos.
- Pretendemos também que todos os produtos usados na merenda escolar venham dos produtores orgânicos, o que garantiria a demanda e aumentaria a quantidade de nutrientes oferecidos às crianças.
Tina Isidoro começou cedo a trabalhar com produtos orgânicos. Ela é responsável por quatro restaurantes vegetarianos e diz que hoje é possível comprar todos os tipos de hortaliças, legumes e verduras orgânicas no Rio:
- Há 24 anos uso produtos orgânicos e comecei com restaurante há 15 anos em Petrópolis. No início tinha pouca coisa. Hoje temos tudo no Brasil. E a qualidade é boa e estável.
Maria Luiza destaca que outro ponto de grande importância é o financiamento da produção. Ela diz que de agosto a dezembro deste ano serão destinados R$ 500 mil para a produção orgânica do estado, recurso que virá de uma linha de financiamento do Banco do Brasil. Mônica Bicudo lembra que até 2000 se um produtor dissesse que queria crédito para agricultura orgânica não conseguiria:
- O gerente dizia que se o produtor não fosse comprar defensores e nutrientes químicos não teria crédito.
Maria José Bezerra diz que não conhece os selos das certificadoras, mas afirma que reconhece que são orgânicos pelo gosto:
- Sei que são mais saudáveis e não têm agrotóxicos. E só de comer sei quando o tomate e a cenoura são orgânicos, o gosto é melhor.
Jorge Vailati, gerente de certificação do Instituto Biodinâmico (IBD) observa que a certificação envolve todo o processo de produção. Cada certificadora escolhe os parâmetros que vai utilizar. Muitas usam as normas internacionais para que os produtos produzidos no Brasil sejam aceitos nos outros blocos econômicos. Depois de concedido o selo, as produções têm uma fiscalização anual com data marcada e outras visitas-surpresa.
Segundo Vailati, na última década a produção de orgânicos cresceu 30% ao ano e no mundo inteiro movimenta US$ 50 bilhões.
- O consumidor precisa ter a noção de que ao escolher um produto orgânico está mexendo com toda uma cadeia. Por exemplo, o produto orgânico já poderia estar mais barato. Mas se um café orgânico é oferecido ao mesmo preço do café plantado com química, o consumidor vai preferir o orgânico e os produtores dos outros tipos de café vão fazer uma enorme pressão. Muitos supermercados aumentam os preços dos produtos orgânicos para garantir a venda dos outros. Se o consumidor começar a comprar o orgânico, uma hora o produtor do café normal vai sentir que é melhor mudar sua forma de produzir.
Produtos hidropônicos não são orgânicos
Vailati diz que um estudo da Organização Mundial de Saúde constatou que 70% das doenças modernas são resultantes dos hábitos da vida moderna:
- Ou seja, metade do planeta morre de fome e a outra metade morre do que come.
Uma confusão do consumidor é pensar que os produtos hidropônicos, que normalmente estão dispostos nos supermercados ao lado dos orgânicos, são também orgânicos. Nada mais errado, dizem os especialistas:
- O produto hidropônico é produzido em água com grande concentração de nutrientes químicos. As folhas absorvem toda a química, principalmente o nitrato, substância altamente cancerígena. Seis folhas de alface hidropônica têm o mesmo nível de nitrato que seis cabeças de alface orgânica. Isso porque a terra equilibra os nutrientes e nem todo o nitrato é absorvido - afirma Vailati.
Maria Luiza de Araújo diz que a vantagem do hidropônico é para o produtor que precisa de pouca área e pouquíssima mão-de-obra.
em Jornal O Globo em 22/08/04

Sem comentários: