junho 05, 2010

Dia Mundial do Meio Ambiente: puxada de descarga e torta na cara da natureza


Tal como no Natal, com aquelas deprimentes mensagens repassadas por gente que sequer conheço, o tal do Dia do Meio Ambiente também gera um frenesi extra em algumas pessoas. ‘Vamos nos conscientizar’ e outras frases bestas entopem a caixa de emails, o Tweeter e outros menos votados. Eu me pergunto se eu tenho algo a ver com isso. Que meio ambiente é esse, sempre apresentado em uma imagem com fundo verde, ou em papel reciclado, ou em anúncios de página inteira de revista? Tem algo a ver comigo? Nunca gostei de acampar, fazer trilha, dormir em barraca, sujar os pés ou sentir falta de um banheiro por perto. Não me considero ecologista, e olho com desconfiança a todo que se apresenta como tal.
Explico.




Todo caçador se apresenta como ‘o verdadeiro ecologista’, toda empresa que não sabe mais de onde arrancar simpatia/dinheiro, lança um produto ‘ecológico’, toda produção industrial fantasia em poder puxar a descarga e se livrar dos resíduos diários – alguns fazem isso, mesmo que tenha um projeto de educação ambiental em escolas, todo candidato a cargos políticos se diz um preocupado com o meio ambiente, mesmo que seja da bancada ruralista ou receba verbas de campanha das piores empresas poluentes, todo cidadão que se diz preocupado com a Amazônia, com a mancha de óleo no Golfo do México e com o futuro dos pandas, frita bife em uma liturgia cotidiana.
Selos de boi verde, carne orgânica e até ‘costela de ovelha ecológica’ – sim, juro que já vi isso – não são correntes na mesa de ninguém, e mesmo se fossem me parecem mais um ’soprar o merthiolate para não arder’ na consciência das pessoas. Este boi nasceu para morrer e acabou no forno da casa de pessoas felizes, mas era verde.
O termo em si se desgastou horrores, e a parcela de bem-intencionados talvez perceba isso, e note que há outros botões a serem apertados, como o anti-especismo e o veganismo. Daí se pode encher a boca para falar que está começando uma vida que tende a ser correta dentro das relações. Pelo menos naquilo que é mais imediato, próximo, constante, como a alimentação. Os animais silvestres também padecem no momento que se abre espaço para pasto de animais domesticados. Todos vão empacotar, então não adianta usar camiseta com estampa de consciência ecológica no sábado de manhã, se não houve uma visão crítica de si e do impacto que a própria existência causa, ou pode causar, nos demais co-habitantes do planeta – os que andam de quatro, voam ou nadam, por exemplo.
Cada vez que se puxa a descarga da privada, é uma torta na cara da natureza – mas, friso, não vejo natureza como um cartão postal de fundo verde, mas um local onde estará um animal não-humano, que não percebe que aquele chão está imundo e tem metais pesados, que aquela água está coberta de óleo ou meleca vindo de curtume. É complicado começar a pensar que o WC é um cadafalso para as paisagens que aparecem na National Geographic, mas esse pensamento é necessário. Mas o que já está disponível para consumo, como uma vivência vegana, não pode ser considerado algo utópico, eco-chato, excêntrico e fanático. É subversivo, pois este é um mundo violento, indiferente, explorador, sem empatia ou compaixão, então toda postura ética passa a ser subversiva. Como cumprimentar com um sorriso aquele vizinho ‘com cara de poucos amigos’. Não vou deixar de ser quem eu sou por ele estar de cara amarrada, não vou jogar o jogo do outro.
E como funciona isso na ecologia?
Questionar as tradições de consumo de produtos de origem animal, testados em animais, causadores de tantos estragos ambientais como o couro, pensar nas conexões entre o consumo de embalagens, plástico, papés, roupas, celulares etc e aquelas imagens de lixão que aparecem na televisão, e causam espanto aos incautos. Foi o vizinho que não nos dá ‘bom-dia’, que comprou tudo aquilo?

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