maio 08, 2010

A indigestão da ética

A vida dos animais, de J. M. Coetzee *
Cristovão Tezza



A literatura do sul-africano J. M. Coetzee, que, sem muito alarde, vem sendo editado no Brasil já há alguns anos - os romances Desonra (Companhia das Letras), A idade do ferro (Rocco), O mestre de Petersburgo (Best-seller), entre outros -, pode nos dar alguma medida do que de mais refinado existe na literatura contemporânea. Coetzee explora ao máximo aquela faixa estreita que restou à linguagem do romance como o espaço por excelência da relação entre ética e estética na interpretação ficcional do mundo, um espaço que talvez não possa ser preenchido com a mesma força por nenhuma outra linguagem. Coetzee é um pessimista visceral, mas sem ênfase. Em seus livros, a investigação sobre a miséria, a dor e a solidão humanas - que lembra o olhar impiedoso do inglês William Golding, de O senhor das moscas - é menos o resultado cerebral de uma visão de mundo fria, derivada da razão, e mais uma sensação quase que silenciosa, mesmo discreta, dos limites sempre rotos da dignidade humana. E há nele, contrabalançando o conforto civilizatório do ponto de vista do primeiro mundo, a realidade estúpida da África do Sul de sua formação (ele nasceu em 1940) - pode-se dizer que a brutalidade lógica do apartheid, configurada pela abstração do Estado e absorvida no cotidiano das pessoas, deu a Coetzee a dimensão de sua literatura, mesmo quando o seu tema não está na África. Como se a África do Sul tivesse simplesmente regulamentado e despersonalizado, para uma eficácia indolor, algum sonho universal de segregação que bate no coração dos homens.



Em A vida dos animais, lançado agora pela Companhia das Letras, esse mesmo universo está presente, mas num texto de perspectiva completamente distinta. Trata-se de duas palestras que Coetzee - ele mesmo professor de literatura na Cidade do Cabo - apresentou na Universidade de Princeton: "Os filósofos e os animais" e "Os poetas e os animais". As conferências vêm acompanhadas de uma introdução e de mais quatro curtas reflexões acadêmicas de especialistas comentando os textos de Coetzee. O tema genérico das palestras é a relação entre os homens e os animais, acentuando-se o ponto de vista de que a morte dos animais para a alimentação humana é um crime ético. Tudo parece indicar que o texto de Coetzee, aliás um vegetariano convicto, é mais um libelo monótono dos messiânicos prontos a afirmarem a própria grandeza e o caminho da salvação diante da miséria alheia. Previsivelmente, as conferências afirmam a desconfiança do mundo da razão e da cultura, que afinal justificam a matança sistemática dos animais; o problema dessa desconfiança está no fato de que, extraída a razão, por limitação ou incompetência, acabamos por não saber nas mãos de quem, ou de quê, ficará o reconhecimento do mundo "justo". Da religião? Da pura intuição?


Acontece que Coetzee tem um recurso extraordinário para escapar desta armadilha acadêmica, recusando-se a se colocar diretamente no papel de conferencista e negando a própria autoridade para decidir a questão. Ele faz isso ficcionalizando a palestra; cria uma velha conferencista, Elizabeth Costello, como ele romancista famosa, que é convidada por uma universidade imaginária para falar sobre literatura mas que prefere falar sobre a matança dos animais. Fica hospedada na casa de um filho com quem tem problemas de relacionamento e de uma nora que a detesta, e é através desses pontos de vista que entramos em contato com a teimosa conferencista. Assim, todo o discurso de Elizabeth (descrita pelo filho como uma mulher chata, no mínimo incômoda) passa a ser ficcionalmente refratado. E é justo nessa dimensão que a questão ética ganha o seu verdadeiro relevo, o fato de que a ética (como de resto todo o universo dos valores que nos guiam) só pode ser considerada no território comum entre as pessoas e não como afirmação isolada de uma autoridade "pensante". Não se trata de relativismo (isto é, todas as opiniões seriam iguais se todas as pessoas são iguais), porque Elizabeth afirma plenamente seus pontos de vista e os defende com firmeza contra outras opiniões; acontece que, como na vida, nosso acesso a esses pontos de vista se faz pelos olhares alheios que lhe dão sentido e referência. Enfim, não podemos desconsiderar o lugar de onde estamos para avaliar Elizabeth.


Assim, o que parece apenas um recurso literário "pós-moderno", como sugere a reflexão de Marjorie Garber incluída no volume, o que reduziria a questão a um mero distanciamento e não comprometimento de Coetzee com o problema que levanta, passa a ser a afirmação da prosa romanesca como um caminho possível de reconhecimento do mundo que assume a impossibilidade de uma última palavra. Isto é, num mundo em que Deus não pode ser tomado como pressuposto e em que a razão não pode ser considerada em abstrato (porque os homens não vivem em abstrato), toda afirmação ganha a incerta estatura humana. Nesse plano, cada palavra encontra sua contra-palavra; por exemplo, a comparação de Elizabeth da matança dos animais com os métodos de Treblinka ("uma empresa metafísica dedicada a nada além da morte e da destruição") é rebatida com simplicidade pelo poeta Abraham Stern, que por um bilhete se recusa a almoçar com ela ("essa inversão insulta a memória dos mortos"; "a senhora disse que é velha demais para perder tempo com frivolidades. O mesmo vale para mim".)


A tensão ficcional que povoa a curta narrativa de Coetzee nada tem da frieza técnica de uma conferência. Assim, mesmo os carnívoros inveterados (como o resenhista) encontrarão no texto um belo exercício de sensibilidade e inteligência para pensar nossos hábitos alimentares, colocando em foco não as idéias, mas as pessoas. E o livro é enriquecido por reflexões que dão o contraponto acadêmico, ou científico, à fábula de Coetzee. A melhor é a de Peter Singer, que mimetiza o método de Coetzee para melhor entendê-lo; e a mais fraca, a de Barbara Smuts, cuja rica experiência de antropóloga com babuínos infelizmente se reduz no livro a uma defesa da convivência pessoal entre homens e animais, entregando-se a um sentimentalismo que passa muito longe da discussão proposta por Coetzee.


Prisioneiros de guerra


"As pessoas reclamam que tratamos os animais como objetos, mas na verdade tratamos os animais como prisioneiros de guerra. Você sabia que quando foram abertos os primeiros zoológicos, os tratadores tinham de proteger os animais dos ataques dos espectadores? Os espectadores sentiam que os animais estavam ali para serem insultados e humilhados, como prisioneiros em uma marcha triunfal. Já promovemos uma guerra contra os animais, que chamamos de caça. Essa guerra foi travada ao longo de milhões de anos. Só a vencemos definitivamente quando inventamos as armas de fogo. Só quando a vitória foi absoluta é que pudemos nos permitir cultivar a compaixão. Mas a nossa compaixão é muito rarefeita."
Trecho de A Vida dos Animais
* John Maxwell Coetzee  foi Nobel de Literatura de 2003; 1º sul-africano a receber o Booker Prize por duas vezes. Há vários de seus livros traduzidos no Brasil e em Portugal.





in  


Deus salve a galinha

Numa obra intrigante, J.M. Coetzee
passa em revista o debate sobre
os direitos dos animais
Jerônimo Teixeira
Vai ser um problema para os bibliotecários: em que estante colocar A Vida dos Animais? (tradução de José Rubens Siqueira; Companhia das Letras; 148 páginas; 19,50 reais) Esse livrinho incômodo faz por merecer seu lugar na prateleira de ficção, mas também entra com desenvoltura na seção de ensaios, de filosofia, de bioética e até na de crítica literária. Mas, enquanto nosso bibliotecário hipotético revisa classificações, você, leitor, já terá descoberto o lugar ideal para a obra do sul-africano J.M. Coetzee: a mesa-de-cabeceira.

Coetzee, 62 anos, é conhecido no Brasil por romances como Desonra, que recebeu o prestigioso Booker Prize em 1999 e narra os tormentos sofridos por um professor universitário demitido depois de se envolver sexualmente com uma aluna. Já A Vida dos Animais foi fruto de um convite para proferir uma série de conferências na Universidade Princeton. No lugar de uma palestra convencional, Coetzee criou a história de Elizabeth Costello, escritora australiana também convidada a falar numa universidade americana. Temos assim uma conferência dentro de uma conferência, o que dá ao autor a oportunidade de apresentar as teses mais radicais sem referendá-las.

Tal como seu criador, Elizabeth quebra as expectativas da platéia que vem ouvir uma escritora consagrada falar de seu ofício. Ela cita Swift, Rilke, Kafka, mas seu assunto central são os direitos dos bichos. Vegetariana radical, ela considera o abate de animais uma monstruosidade comparável ao holocausto judeu. Essa analogia polêmica provoca a indignação de Abraham Stern, poeta judeu que se recusa a comparecer a um jantar em homenagem à conferencista. A escritora ainda enfrenta oposição na própria família. Para sua nora – Norma, professora de filosofia desempregada –, a defesa dos animais é uma baboseira irracional.

O livro traz um apêndice com textos de quatro acadêmicos (reais, não ficcionais) de diferentes áreas que discutem as teses de Coetzee/Elizabeth. Professora de literatura, Marjorie Garber procura mostrar que a analogia entre o holocausto e a indústria da carne não é inédita. Wendy Doniger, professora de história das religiões, revisa as interdições ao consumo de carne em diferentes culturas. A primatologista Barbara Smuts nota uma ausência na argumentação: no esforço de denunciar um crime, a possibilidade de afeto entre homens e animais ficou esquecida. Aproveita a deixa para falar de suas experiências entre os babuínos, na África.

Mas a resposta mais interessante é a do filósofo Peter Singer, especialista em bioética. Singer criou um diálogo fictício com uma filha adolescente para apresentar sua refutação às teses de Elizabeth. Sim, refutação: mesmo esse grande paladino da bicharada acredita que dona Costello vai longe demais. Você ainda pode apreciar seu bife com fritas sem se sentir o Eichmann das vacas. Apesar da pregação doidivanas da protagonista, A Vida dos Animais não é um panfleto ecologista. O autor nem sequer dá uma palavra final sobre os dilemas que levanta. Coetzee limita-se a colocar idéias em choque. Idéias extremas, que não cabem em uma camiseta do Greenpeace.

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