janeiro 11, 2010

Carne (2): chegam os neocarnívoros

Se vegetarianismo é objeção de consciência alimentar, esse conceito é uma afirmação de “guerra justa”

Talvez seja pela saturação das infinitas lágrimas derramadas sobre o sofrimento¹ dos animais, mas uma coisa está certa: uma filosofia neocarnívora começou produzir pensamento e cultura. Anima o debate em revistas de referência: por exemplo, “BEEF!”, revista alemã, 100 mil cópias vendidas a cada três meses e “Meatpaper” que, não por acaso, nasceu naquele berço das cultuas do amanhã que é São Francisco, na Califórnia². “Meatpaper” se define como “um jornal de cultura da carne, nascido para explorar e contar uma nova curiosidade, não tanto sobre o que tem num cachorro-quente, mas sobre como foi criado, de onde vem e o que significa comê-lo”.




Sismógrafo da “Fleishgeist”, isto é, Espírito Carnívoro dos Tempos, segundo as fundadoras Sasha Wizansky e Amy Standen, ambas ex-vegetarianas e vegetarianos são também parte de seus leitores. Paradoxo aparentemente parcial, porque as filosofias neocarnívora e vegetariana uma coisa compartilham: a concepção quase sagrada do animal. No caso dos carnívoros essa impõe o abate, que se torna ritual, e um respeito do corpo do animal sacrificado que exige que nada seja desperdiçado.



“Fleishgeist” é um conceito que expressa reação ao enfraquecimento das categorias de hoje. Uma tentativa, meio que paradoxal, de se agarrar a valores fortes. Se o vegetarianismo é objeção de consciência alimentar, esse conceito é uma afirmação de “guerra justa”, que prevê a honra das armas do adversário. Uma homenagem ao espírito do animal abatido, que remete à sociedade de caçadores, a valores perdidos e saudosos. E tem mais: em afirmar com força a intensidade da carne e do imaginário a ela ligado, há um chamado para reencontrar os valores da cultura ocidental, negligenciados em favor de exotismos de ashram, de orientalismos ascéticos e, não raramente, esnobe. A carne é parte integrante do imaginário religioso do mundo ocidental: o corpo de Cristo, o cordeiro de Deus, “quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna”. Os símbolos que carregamos lá no fundo remetem ao sacrifício e ao consumo do sacrificado.



Enquanto isso os vegetarianos usam o próprio³ corpo para atrair seguidores: em Portland, no estado norte-americano de Oregon, abriu uma casa de strip-tease, Casa Diablo Gentlemen’s Club, onde a proteína de soja substitui a carne nos tacos e chimichangas e as dançarinas, vegans e vegetarianas, usam couro sintético, e não natural...


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