dezembro 12, 2009

Crônica/Orgasmos vegetarianos na Serra da Tiririca

DE: BETY ORSINI
 

Maria Pia posa no Verdejante: um passeio imperdível



Tenho uma amiga que vive repetindo: "Niterói é um lugar maravilhoso." E eu sempre concordo com um "É sim, não gostaria de morar em outro lugar." Não se trata de um caso grave de bairrismo. Bem, talvez um pouco, mas só um pouquinho. Adoro Niterói, cidade que adotei aos 6 anos de idade, quando troquei o Rio pela terra de Araribóia. Mas o que mais adoro são as coisas que descobrimos por aqui, assim por acaso. Foi o que aconteceu com o restaurante Verdejante, dica preciosa do meu amigo e produtor cultural Paulinho Lima. Gente, vocês já foram ao Verdejante? É imperdível para quem mora (e também para quem não mora) nesta cidade. A aconchegante casa dos argentinos Maria Pia e Oscar Palácios, que fica no coração da Serra da Tiririca, é o melhor restaurante vegetariano que conheço. E uma opinião minha nessa área, diga-se de passagem, deve ser respeitadíssima já que, antes do Verdejante, eu odiava culinária vegetariana. Achava esse tipo de comida, digamos, uma espécie de sexo sem orgasmo.

A primeira vez que fui lá me senti personagem de "A festa de Babette", tal a sofisticação da cozinha de Maria Pia. Vocês lembram do filme? Vale refrescar a memória. Numa pequena aldeia temente a Deus, na desolada costa da Dinamarca, onde a vida gira em torno da religião, surge Babette, que se refugia na casa de duas recatadas solteironas, filhas do mentor do vilarejo, um falecido pastor. Com o passar do tempo, os dotes culinários de Babette invadem a alimentação insossa dos habitantes, até que, certo dia, ela oferece um jantar que conquista o paladar dos convidados e que, nada mais é, do que a descoberta do prazer sem culpa. No Verdejante, também é assim. Durante a semana inteira, Maria Pia se dedica a rituais para o preparo dos almoços de sábado e domingo, únicos dias em que o restaurante funciona. É curioso como, depois de provar aquelas delícias, coisas incríveis podem acontecer na nossa vida. Certa vez, depois de um lauto almoço no Verdejante, fui acometida de um frenesi estranhíssimo.... Bom, é melhor não falar nisso para não criar celeuma. Afinal, como colunista deste espaço não devo confessar minhas fraquezas em público.

Peguei Biscoito Maria (mamãe); minha amiga Manu (uma escultura calipígia em carne e osso); minha nora Maria Elisa; meu filho Marco Antonio e fomos almoçar off Icaraí, torcendo para a estrada que leva ao restaurante estar boa. Já tinham nos alertado que, quando chove muito, ela fica horrível, e o carro às vezes atola. Como o dia estava claro, céu azul, brisa suave, partimos bem cedo para o Engenho do Mato. De Icaraí até lá, levamos mais ou menos meia hora. Mas valeu a pena. A impressão é que estamos no campo, onde todos os prazeres são permitidos. É uma região de sítios. Alguns dos meus amigos mais sofisticados já compararam o lugar a Giverny, na França, onde o impressionista Claude Monet pintou a famosa série de quadros chamada "Nenúfares" e onde o artista passou os últimos anos de sua vida. Confesso que não visitei a casa de Monet, mas, se ele gostava de verde, cheiro de mato e pássaros cantando, lá no Verdejante também tem. É um lugar ao mesmo tempo aconchegante e sofisticado. Há mais de 30 anos, Maria Pia e Oscar decidiram dar uma guinada na vida: mudaram para Niterói e viraram vegetarianos. Depois, abriram o restaurante, um natural que é, acima de tudo, gastronômico e de bom gosto. As paredes são cobertas com aquarelas e telas pintadas pelos donos. Há também esculturas de Pia espalhadas pela casa. O vôo dos pássaros e o piar dos quero-queros se misturam a sons clássicos como a "Missa em si", de Bach. E há jasmins perfumando todo o lugar, como se fosse o paraíso se abrindo diante dos nossos olhos. E o capim-limão que Maria Pia pega direto da sua horta para oferecer o chá numa xícara com água fumegante? O sabor é inesquecível. É uma casa simples, mas as comidas... Ah, que pratos! São de comer gemendo de prazer as terrines de nozes cobertas com molho de frutas vermelhas; o flã de cenoura com lasquinhas de laranja caramelizadas ou os crespelles que parecem hóstias. Estávamos saboreando essas iguarias e nos deliciando com o clima campestre quando minha amiga calipígia, sempre atenta aos prazeres da carne, viu um rapaz louro, alto, bonitão e com um sorriso cheio de promessas entrar no restaurante. Não sei se foi o temperamento ardente da moça ou uma overdose de libido deslanchada pelos tais crespelles que fez minha amiga imediatamente tentar conseguir informações mais detalhadas sobre o rapaz com um amigo que encontrou na mesa ao lado. O homem foi categórico. "Não dá não, querida, ele é totalmente Oxumaré." "O-XU-MA-RÉ?", perguntou ela. E ele concluiu: "É, Oxumaré, metade do ano ele é homem; metade do ano, é mulher.

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