Desde há muitos anos, mais de uma década, a luta pela abolição da farra-do-boi, uma farra praticada por um grupo bastante reduzido de indivíduos, mas com a cumplicidade silenciosa da maioria da população e das forças militares que a deveriam coibir, tem sido uma forma de expressão da luta pela abolição de todas as práticas, individuais ou institucionalizadas, de maus-tratos aos animais.
A quaresma católica torna-se, todos os anos, o purgatório dos defensores dos animais e o inferno desses. Mas, essas poucas semanas que sucedem a orgia carnavalesca e antecedem a “ressurreição da carne” são apenas uma pequena demonstração da batalha sem fim infligida à vida dos animais não-humanos pelos humanos, acostumados que são a fazerem o que bem entendem com a vida dos outros, e o fazerem de modo absolutamente escravizador, cínico e cruel com a vida daqueles que não podem se defender.
A farra-do-boi tem sido justificada com o argumento de que representa a preservação das tradições. Justamente por usar o termo tradição, o defensor dessa malevolência abre os flancos para que um juízo moral possa ser feito a respeito de sua prática. Nem tudo o que se apregoa como tradição tem valor moral. Nem toda tradição é digna de ser passada às gerações futuras ou mantida pela geração atual como uma forma de mostrar nossa evolução moral, econômica, estética, política ou cultural.